Recuperamos ainda uma reportagem do programa de televisão Fotograma onde The Legendary Tigerman fala sobre as curtas-metragens que realizou em formato super 8, a sua participação como actor no filme Tebas de Rodrigo Areias e essencialmente no documentário On the Road to Femina de Jorge Quintela - uma entrevista realizada no dia 1 de Outubro do ano passado no concerto de apresentação do álbum Femina no cinema Sá da Bandeira no Porto.
Só para abrir o apetite para a sessão desta noite cá vai o vídeoclip do tema Life Ain't Enough For You de The Legendary Tigerman com a muito "cinemática" Asia Argento, actriz italiana e filha do mítico cineasta Dario Argento, que emprestou a voz e o corpo ao álbum do nosso "felino" Paulo Furtado. E não, não há coincidências: há algo de muito próximo entre a música do "homem-tigre" e o mundo do cinema - algo que tem muito que ver com a capacidade das suas melodias sugerirem imagens e narrativas para além do som (imaginamos que também tenha sido isso que tenha atraído o olhar do realizador Jorge Quintela).
O Teatro José Lúcio da Silva recebe hoje, segunda-feira (dia 3 de Maio), pelas 21h 30 (e somente um dia depois do IndieLisboa 2010 ter terminado em Lisboa), uma extensão do importante Festival de Cinema Independente à semelhança do que aconteceu o ano passado em Leiria. A abrir teremos então o documentário de Jorge Quintela: On the Road to Femina, obra presente na secção Indie Music que retrata a gravação e o lançamento do álbum Femina de The Legendary Tigerman. Acima podemos ver uma entrevista do realizador gravada durante a última edição do IndieLisboa.
O programa da extensão IndieLisboa 2010 em Leiria já está disponível e pode ser visto nas colunas ao lado, mas uma boa ideia também era espreitarem o folheto ainda antes dele ir para a rua amanhã - ena, ena, já viram o privilégio? E porque nesta história de privilégios não ficamos por aqui, é preciso dizer ainda que o Teatro José Lúcio da Silva e o Teatro Miguel Franco recebem já na próxima segunda (dia 3 de Maio) e até quarta (dia 5), apenas um dia depois do IndieLisboa 2010 terminar em Lisboa, aquela que é na verdade a primeira extensão imediatamente após a edição deste ano. A abrir no Teatro José Lúcio vamos ter o documentário de Jorge Quintela: On the Road to Femina, presente na secção Indie Music e sobre a gravação e o lançamento do álbum Femina de The Legendary Tigerman (a sessão decorre às 21h 30).
Já no dia seguinte, e naquele mesmo espaço, pelas 14h 30, será então a vez dos mais pequenos terem direito a uma sessão IndieJúniorcurtas >3 anos onde poderão admirar um conjunto de filmes de animação expressamente dirigidos à sua idade (embora os adultos também estejam convidados). Pouco mais tarde, pelas 21h 30, chega a vez de Heddy Honingman, cineasta a quem foi prestada homenagem na edição do IndieLisboa deste ano através da secção Herói Independente, mostrar-nos O Amor Natural, um documentário passado nas praias do Rio Janeiro sobre o amor, o sexo e o erotismo (e toda a alegria que isso nos traz à vida).
A terminar, no Teatro Miguel Franco, teremos duas sessões, pelas 18h 30 e 21h 30, dedicadas a mostrar algum dos Filmes Premiados no Festival (e que naturalmente até esta altura não saberemos quais serão, mas que oportunamente serão divulgados depois da cerimónia de atribuição dos prémios a decorrer no próximo sábado).
Manoel de Oliveira, ausente o ano passado no Festival de Cinema de Cannes e alvo de homenagem há dois anos atrás neste mesmo certame, durante a celebração do seu centenário, regressa na edição deste ano à selecção oficial com um novo filme (a decorrer de 12 a 23 de Maio): O Estranho Caso de Angélica. A obra está ainda em fase de montagem e vai ser exibida fora de competição, na secção Un Certain Regard, onde também poderemos encontrar outro veterano da Sétima Arte: Jean-Luc Godard que mostrará Film Socialisme.
Quanto à mais recente produção de Oliveira trata-se da adaptação de um projecto antigo do realizador, dos anos 50, cujo argumento chegou a ser inclusivamente editado em livro, e que tem como protagonista a actriz espanhola Pilar López de Ayala. O restante elenco integra os habitués do cineasta: o neto Ricardo Trepa, assim como Leonor Silveira, Luís Miguel Cintra e Isabel Ruth.
Werner Herzog nunca escondeu o seu fascínio pela relação entre o Homem e a Natureza; em muitos dos seus filmes mais recentes (Grizzly Man, Encounters at the End of the World) o realizador germânico eleva mesmo os retratos dessa ligação entre o humano e o natural a uma dimensão quase mística e radical, por vezes espiritual, noutras vezes alienatória, mas sempre fixado nas várias formas e dimensões que tais experiências limite podem vir a ter e a modo como tocam temas universais como a morte, o divino e as nossas origens.
O projecto do seu próximo documentário não será, portanto, muito diferente: Herzog parece ter conseguido autorização para filmar no interior das grutas de Chauvet-Pont-d'Arc, situadas na zona de Ardèche, sul de França, onde podem ser encontradas as mais antigas pinturas rupestres descobertas até à data, com cerca de 30 mil anos de existência. Se este facto é extraordinário, tendo em conta que as grutas e as pinturas têm estado vedadas ao público devido ao risco sério de degradação e preservadas fora de qualquer contacto humano, Herzog pretende ainda rodar esta nova produção em 3D.
Ou seja, por outras palavras, o documentário de Herzog pode bem constituir a única oportunidade que teremos de observar este espaço e as milenares pinturas que nos mostram leões, panteras, ursos, hienas, rinocerontes (sim, leram bem, rinocerontes) ou mochos - o que sugere até que ponto a fauna e a flora da vida selvagem em França era diferente da de hoje. Segundo declarações do cineasta, este era um filme que há muito desajava fazer já que a arte rupestre foi sempre algo que o fascinou. Quanto à tecnologia utilizada, Herzog adianta que o processo utilizado tem sido bastante difícil e duro. As paredes não podem ser tocadas e as luzes não podem criar qualquer tipo de temperatura. As câmaras foram construídas totalmente de raiz e usam lentes específicas para o efeito 3D, algo que nunca foi feito.
Já se sabia que Stanley Kubrick antes de ter olho para o cinema havia tido olho para a fotografia: para ele foi aí que tudo começou, por volta dos seus 13 anos, quando o pai lhe ofereceu uma máquina fotográfica Leica III - o que levou o jovem artista não só a descobrir a paixão pela imagem como a aperfeiçoar a sua técnica, isto antes de ser contratado pela revista Look quando ainda tinha apenas 17 anos.
O realizador de 2001: Odisseia no Espaço permaneceu na revista Look durante cinco anos, ingressando mais tarde no mundo do cinema, e deixando para trás a fotografia. Perdeu-se um fotógrafo, mas ganhou-se um cineasta (um dos mais importantes de sempre) e por isto Kubrick vai ter agora uma exposição em Milão onde será exibida uma colecção de cerca de 200 fotos capturadas entre 1945 a 1950 pelo realizador.
Consta que um ano antes da sua morte, o organizador da exposição, Rainer Crone, foi ter com o realizador para pedir autorização para reunir o material patente na cidade italiana. Kubrick ter-lhe-á dito "tome o seu tempo e boa sorte". 12 anos depois, o resultado pode ser visto no Palazzo della Ragione de Milão, de 16 de Abril a 4 de Julho.
Começa hoje a quarta edição do PANORAMA, a Mostra do Documentário Português, que ao longo dos próximos dez dias exibirá nas salas do cinema São Jorge, em Lisboa, os melhores documentários produzidos em Portugal durante o último ano. O filme que dá início a este certame, pelas 21h 30, será Jaime de António Reis, que a par de Margarida Cordeiro são os cineastas homenageados na secção Percursos no Documentário Português (com exibição garantida da restante filmografia da dupla: Trás-os-Montes, Rosa de Areia e Ana). Haverá ainda antes da sessão de abertura, pelas 19h, o lançamento dos Livros de Debates I, II e III, edições que são uma memória das conversas ocorridas entre 2006 e 2009 e marcam não só a história do próprio PANORAMA, mas muito mais claramente os três anos de história do documentário português.
Depois de uma primeira edição cuja a programação foi organizada por temas, de uma pesquisa na segunda sobre as ferramentas do cinema documental português e da tentativa de descobrir como se trabalha no documentário na última edição, a 4ª Mostra do Documentário Português, que decorre até ao próximo dia 18 de Abril, dá continuidade à questão levantada no ano passado, olhando para a produção dentro de paredes particulares: as da escola. Consultem o programa aqui ou dêem uma olhada ao folheto aqui.
Depois de interpretar o papel de um detective do FBI no último filme de Martin Scorsese, The Shutter Island, Leonardo di Caprio parece que vai subir um pouco na hierarquia e interpretar o mítico J. Edgar Hoover, fundador e director durante vários anos do Federal Bureau of Investigation, uma das mais poderosas e temidas personagens da História dos Estados Unidos no século passado (e em particular no período pós-II Guerra Mundial), numa produção que será assinada por Clint Eastwood. O argumento, que será escrito por Dustin Lance Black (guionista de Milk que assim parece pegar em alguém que está nos antípodas da imagem do activista pelos direitos dos homossexuais que Gus Van Sant retratou - ou talvez não: são vários os rumores que davam Hoover como um homossexual "escondido" e com tiques de travesti) abordará a ascensão desta controversa personalidade, desde o instante em que fundou o FBI até ao momento da sua morte em 1972, altura em que continuava a ocupar o cargo cimeiro desta organização.
E depois não nos venham dizer que o cinema português não existe ou que é uma "seca", que o Manoel de Oliveira está velho e acabado ou que não quer saber do público e das audiências, que os filmes portugueses são a melhor cura para a insónia ou a fonte de todos os tédios, essas coisas e tal. Ou que não há beleza aqui, e sonho, e espelhos, e cinema. A Vida, a Morte e o Sagrado - assim mesmo com maiúsculas. E Bénard da Costa (que saudades).
Running on Empty (título original que preferimos ao nacional Fuga Sem Fim) é um belíssimo filme de Sidney Lumet, um dos cineastas americanos mais injustamente subestimados, que cruza o universo da adolescência e da família com uma sensibilidade invulgar - embora pelo meio ainda haja uma história de dissidência política e marginalidade, é certo, e uma meditação sobre o crescimento que importa não desprezar. Mas essencialmente é um filme com tudo no sítio: ritmo, narrativa, personagens em que se acredita, uma mise-en-scene à beira da perfeição e uma delicadeza visual rara (Lumet pega em cada cena e em cada imagem como se pegasse nas asas de uma borboleta). E claro, River Phoenix, Judd Hirsch, Christine Lahti ou Martha Plimpton, actores a quem Lumet retira a matéria-prima do cinema. Esta sequência explica em parte o que queremos dizer e explica um pouco do princípio que assiste a esta obra-prima numa extraordinária e singela dança de corpos, sentimentos e relações. Há muito tempo que não víamos uma família destas no cinema.
Quem disse que o cinema de James Cameron é só fantasia? O realizador anda agora pelo mundo com uma missão que pode ser entendida quase como uma espécie de correspondência entre a realidade e as questões que atravessam boa parte do maior sucesso de bilheteira da História do Cinema: Avatar. Este anda não só preocupado com o impacto ambiental de uma central hidroeléctrica na Amazónia como o site da Globo vai avançando que o cineasta resolveu enviar uma carta formal ao Presidente brasileiro, Lula da Silva, a solicitar a suspensão imediata do projecto de construção desta infra-estrutura em Monte Belo.
Para isso Cameron deslocou-se mesmo ao Brasil para participar no Fórum Internacional de Sustentabilidade, em Manaus, onde aproveitou para se encontrar com representantes do povo de Xingu. Isto mostra bem do empenho do ex-marido de Kathryn Bigelow na luta contra a construção da central que já foi comparada à do povo Na`vi. James Cameron afirma que ambos sofrem "ameaças e injustiças" e considerou a hipótese de ainda vir a filmar a sequela de Avatar na Amazónia (ora aí está uma novidade). Parece que o governador Eduardo Braga e o Secretário de Estado da Cultura, Robério Braga, tentaram ainda convencê-lo rodar parte do filme naquela região, tendo sido enviado ao realizador de Titanic uma Carta de Apoio à Produção Audiovisual na Amazónia, além de uma lista com as zonas que poderiam servir de ao filme.
Foi aliás através do contacto com muitos dos realizadores internacionais que por ali passaram, como Sir Alan Parker, Claude Lelouch, Norman Jewison, Irvin Kershner, Paul Redman, John Boorman, John Mc Tiernan, Roman Polanski, Hugh Hudson e Matt Dillon, que Cameron tomou conhecimento da zona e da sua "fotogenia" adequada a produções audiovisuais, defendendo também a necessidade de haver um maior convívio e uma maior harmonia entre a natureza e a indústria do cinema nos próximos anos. "Acho que os filmes podem ser feitos de maneira mais verde", adiantou.
Depois do sucesso nas bilheteiras de Alice no País das Maravilhas, o que é caso para dizer que Burton está hoje também no "país das maravilhas" das apostas dos estúdios, o realizador norte-americano já é apontado para mais uma adaptação de um clássico da literatura infantil: A Bela Adormecida (história criado pelo francês Charles Perrault no longíquo séc. XVII). Ou seja, Tim Burton mantém-se no domínio dos mundos de fadas (isto também deve significar no domínio do mundo 3D) e prepara-se para transformar em filme e com personagens reais (ou não, ou talvez ambas, ninguém sabe) um clássico do imaginário infantil - e se bem conhecemos Burton deve vir aí uma Bela Adormecida negra, muito negra. Bastante certa parece ser também a presença de Angelina Jolie que ao que consta, segundo o Guardian, deverá interpretar o papel da Rainha Má. De momento, e quanto a nomes, é tudo. Mas por nós, Burton e Jolie já chegavam.
Esteve presente no último Estoril Film Festival onde, além de mostrar que sabia representar, aproveitou também para revelar pela mão de Paulo Branco os seus dotes na pintura: o certame contou então com uma exposição de quadros da sua autoria. Talvez por isso (ou talvez não) o Festival de Cinema de Cannes resolveu igualmente trazer Juliette Binoche para a frente do cartaz na sua 63.ª edição. O cartaz oficial, portanto, é aquele que podemos ver acima onde a actriz francesa demonstra não só que sabe pegar em pincéis como desenhar a luz de Cannes (no cinema é tudo uma questão de "luz"). A foto é de Brigitte Lacombe e o grafismo pertence a Annick Durban. O corpo e o sorriso são de Juliette Binoche.
Há uma ideia erradíssima sobre o cinema português - e é caso para dizer que o cinema português sempre pareceu sofrer disto: das "ideias" que se têm dele e menos da realidade que é a sua (que essa sim, por ignorância ou por alheamento, parece escapar aos juízos imediatos e estereotipados) - que avança que os seus agentes (realizadores, produtores, actores, argumentistas, sei lá) passam o tempo e a vida à espera do subsídio à sombra da bananeira e a fazer tudo por tudo para tirar gente das salas de cinema.
Pode haver casos em que tal aconteça e não temos dúvidas que boa parte dos equívocos entre os criadores e as audiências estão hoje enraizados numa espécie de resistência natural entre uns e outros, mas a verdade é que o desejo de fazer cinema, em suma, de fazer filmes e contar histórias anda por aí e os mais desatentos não podem julgar tudo pela mesma bitola só porque o discurso contra o cinema nacional se tornou uma "moda crónica" das mesas de café. Isto para dizer só o seguinte: há bons e maus filmes, bons e maus realizadores, uma evidência tão natural no nosso país como na indústria americana.
O problema é que isto impede-nos, a nós portugueses, de distinguir a qualidade da mediocridade. É uma derrota à partida que todos aqueles que lutam para produzir e estrear filmes não merecem. O artigo do Público de hoje, intitulado "O cinema português nunca existiu tanto e com tão pouco" (bem ao estilo da jornalista Inês Nadais) mostra-nos afinal que há gente no cinema português a fazer por ele. O cinema português não é uma abstracção: tem virtudes e defeitos, precisa de soluções e criatividade, de dinheiro e imaginação, e essencialmente de público. De ser visto. Era bom que começássemos por aí, de uma vez por todas.
Imagem: Trás-os-Montes (1976) de Margarida Cordeiro e António Reis
É uma notícia que já podemos confirmar: à semelhança do que aconteceu no ano passado o IndieLisboa volta a passar por Leiria e Alcobaça e pela rede *aurora, trazendo mais uma vez para fora da capital o melhor que se anda a fazer no universo do cinema independente por esse mundo fora. O Teatro José Lúcio da Silva volta desta forma a ter o privilégio de constituir o primeiro local a acolher uma extensão da 7.º edição do Festival Internacional de Cinema Independente de Lisboa, logo após o fim do certame no dia 2 de Abril - leirienses, as datas a apontar são as seguintes: 3 a 5 de Maio -, seguido alguns dias mais tarde pelo Cine-Teatro de Alcobaça que recebe pela quarta vez consecutiva (é já uma relação consolidada), entre os dias 15 e 17 de Maio, a igual oportunidade de darmos uma espreitadela ao programa do festival.
O IndieLisboa terá lugar este ano entre os dias 22 de Abril e 2 de Maio também na Culturgest, que este ano se assume como co-produtora do evento juntando, deste modo, mais dois ecrãs de cinema aos seis já conhecidos. A programação caracteriza-se, como sabemos, pela apresentação de longas e curtas metragens, obras de ficção, filmes de animação, experimentais e documentários tendo como objectivo principal a promoção e divulgação de obras e autores nacionais e estrangeiros ao público em geral e aos profissionais do sector.
Naturalmente, o programa previsto para as extensões do IndieLisboa 2010 em Leiria e Alcobaça ainda não é possível ser conhecido dada a natureza de actualidade da mostra, pois só depois do final do festival ficará decidida a selecção de filmes. Certa será a presença já habitual de uma sessão IndieJúnior adequada aos mais jovens (embora não só: os graúdos não costumam ficar alheios à qualidades das obras presentes nesta secção) e pelo menos três longas-metragens que poderão ser de produção nacional ou estrangeira.
Morreu Eric Rohmer, um dos grandes nomes do cinema francês (ou do cinema "tout court") e um dos últimos representantes da Nouvelle Vague, nascido a par de François Trufaut ou Jean-Luc Godard na célebre redacção da Cahiers du Cinema.
Esta lista top 5 é, no fundo, um top 6. Porquê? Por reservar o último lugar a essa coisa rara por cá: o cinema documental. E por aí encontrarmos dois dos melhores exercícios visuais sobre a memória pessoal que vimos nos últimos tempos. Quem disse que os últimos não eram os primeiros?
1 :: Gran Torino de Clint Eastwood
O filme do ano e nova obra-prima de Clint Eastwood, o maior cineasta vivo da actualidade, numa história que resume uma carreira e um percurso ímpares, servindo ainda de testamento do grande cinema e da marcante iconografia a que nos habituou.
2 :: Sacanas sem Lei de Quentin Tarantino
Provavelmente, o filme mais “Tarantino” de Tarantino, onde palavra, símbolo e literatura atingem na obra deste compulsivo reciclador do cinema popular o seu expoente máximo, alimentando a tensão de sequências únicas e onde a acção explode literalmente em todas as direcções.
3 :: Milk de Gus Van Sant
Uma obra no limiar da perfeição e verdadeiro manifesto do liberalismo americano, espelho da luta pelos direitos civis de uma época (que também é a nossa) como marca de liberdade e como expressão ainda do melhor cinema de um “autor” americano por excelência.
4 :: Star Trek de J. J. Abrams
A isto, sim, podemos chamar renovação de um dos “serials” mais icónicos da ficção científica, não apenas na sua dimensão visual e narrativa, mas através dos valores fundamentais que regem um género, apesar de tudo, clássico, onde a qualidade e o entretenimento nunca foram incompatíveis.
5 :: A Valsa com Bashir de Ari Folman / As Praias de Agnés de Agnés Varda
Primeiro, foram dois documentários a conseguir chegar a um “difícil” circuito de distribuição que vive, anseia e se deixou dominar por vampiros e “blockbusters”. Segundo, porque fizeram do passado e da memória pessoal um universo de auto-descoberta, espelho de traumas pessoais ou puro reflexo da magia do cinema.
"Time is a funny thing. Time is a very peculiar item. You see when you're young, you're a kid, you got time, you got nothing but time. Throw away a couple of years, a couple of years there... it doesn't matter. You know. The older you get you say, 'Jesus, how much I got? I got thirty-five summers left.' Think about it. Thirty-five summers."
Também a caminho da caixa de correio por estes dias está The Hero of a Thousand Faces de Joseph Campbell, um importante ensaio de mitologia comparativa onde o autor instituiu em 1949 uma análise do arquétipo do herói no mundo da ficção e no universo concreto das diferentes mitologias humanas. Um livro que influenciou muito George Lucas (isto aparte tudo o resto: Bíblia, Tolkien, II Grande Guerra, Kurosawa e os filmes de samurais, filosofia oriental, etc.) e as suas trilogias da Guerra das Estrelas. A tese de Campbell radica nesta simples evidência: a de que os mais importantes mitos do mundo sempre partilharam ao longo dos séculos uma estrutura fundamental comum - o monomito. Um termo tomado de empréstimo ao clássico Finnegan's Wake de James Joyce e que ilustra o padrão da viagem do herói nos mais diversos mitos e narrativas culturais do nosso planeta; chegando a dar aí os casos de Moisés, Cristo e Buda. Para Campbell, tudo começa quando o herói abandona a região do seu quotidiano para entrar num mundo de poderosas forças sobrenaturais (e talvez o caso mais óbvio que agora ande por aí seja o Avatar de James Cameron): espaço onde a conquista de uma vitória lhe dá a capacidade de trazer algo de novo ao mundo e aos seus companheiros.
"Joe: You're Norma Desmond. You used to be in silent pictures. You used to be big. Norma: I am big. It's the pictures that got small. Joe: I knew there was something wrong with them."
Diálogo entre as personagens de William Holden e Gloria Swanson em O Crepúsculo do Deuses
E assim termina o ciclo de cinema Natal em Família no CCC das Caldas da Rainha: Um Milagre de Natal será exibido hoje, pelas 21h 30, no Pequeno Auditório e trata-se da estreia na realização do actor italo-americano Chazz Palminteri (um nome conhecido pelos seus papéis de mafioso, mas que arrisca aqui outros voos) onde seguimos o percurso de várias personagens, interpretadas por diversos actores consagrados (está lá a Susan Sarandon e Penélope Cruz: o melhor de dois mundos), durante a noite de Natal. Para o ano há mais, vamos terminar este bem.
"I don't really see a conflict between the church and the movies. The sacred and the profane. Obviously there are majour differences. But I can also see great similarities between the church and the movie house. Both are places for people to come together and share a common experience. I believe there is spirituality in films, even if it's not one that can supplant faith. I have found over the years that many films address themselves to the spiritual side of man's nature, from Griffith's film Intolerance (1916) to John Ford's The Grapes of Wrath (1940) to Hitchcock's Vertigo (1958) to Kubrick's 2001 (1968) and so many more... It's as if movies answer an ancient quest for the common unconscious. To fulfill a spiritual need that people have to share a common memory."
Martin Scorsese no documentário Uma Viagem com Martin Scorsese pelo Cinema Americano
Este pequeno artigo da Lusa publicado pelo semanário Sol é mais um sintoma do crescente abandono a que a sala de cinema foi vetada - e aqui não entra naturalmente a lógica de consumo das grandes salas dos centros comerciais onde, infelizmente, os filmes se confundem com um pacote de pipocas. Falamos da sala de cinema não apenas como um lugar de experiência eminentemente social e comunitária, mas acima de tudo espiritual. Parece estranho usarmos o termo "espiritual" e contudo é disso mesmo que se trata: porque nunca vimos a sala de cinema de outra maneira. Este é um lugar que sempre foi de reflexão interior, um espaço ainda de "consciência" do mundo e da condição humana, de busca de sentidos, de oração (sim, oração, levamos isto às últimas consequências) e transcendência. Um universo de refundação de valores através da narrativa e dos grandes mitos; e a partir dos heróis e heroínas que nunca deixaram de funcionar para nós como "avatares", para usar uma expressão agora em voga, das nossas próprias inquietações e desejos, sonhos e dilemas. Um mundo hoje, também em Lisboa, em ruínas, ao abandono, esquecido, sem vida; que não é muito diferente do que grassa por esse país fora e no resto do mundo. Ou porque já não conseguimos olhar para a sala de cinema como uma porta para a relação com o "outro". Essencialmente devido a um modo de vida que não admite mais mundo para além do nosso umbigo nem procura resolver o imenso mistério da vida que nos envolve. Sem nostalgia, sem rancor nem raiva, ou sequer melancolia, apetece somente perguntar isto: se não sabemos como partilhar a sala de cinema o que saberemos alguma vez partilhar?
Nos próximos dias vou andar ainda atento à caixa de correio e a razão também se deve a Chaplin. A Chaplin porque viveu a sua vida de uma forma extraordinária, reflectindo boa parte dessa experiência na sua carreira. A Stephen M. Weissman, um psiquiatra norte-americano e professor da Washington School of Psychiatry, porque passou anos a investigar a vida do realizador e actor britânico, apresentando-nos agora uma obra intitulada Chaplin: A Life onde temos uma perspectiva da sua obra cinematográfica através do olhar psicanalítico de um estudioso que acreditou ser possível olhar a vida deste autor como uma forma de interpretação dos seus filmes e vice-versa. Um trabalho que naturalmente se concentra na infância difícil de Chaplin em Londres, na pobreza desses primeiros anos de vida e na relação com a mãe (e o seu percurso de demência), sem esquecer os conturbados episódios da sua vida privada em adulto. Consta que há por aqui revelações e segredos únicos que nos ajudam a perceber não só a complexidade de um artista como Chaplin, mas igualmente a simplicidade da sua grande personagem de sempre: Charlot.
A propósito de Chaplin e da sua mansão em Vevey, na Suiça, foi também daí que veio uma das melhores notícias deste ano: a criação neste local de um museu dedicado ao cineasta britânico e ao seu percurso na História do Cinema. A escolha recaiu na sua última morada, deixando de fora outras hipóteses como Londres e Los Angeles, cidades onde também viveu. Segundo Michael Chaplin, o projecto tem sido delineado ao longo da última década e estará terminado dentro de dois anos, integrando objectos que pertenceram a Chaplin, uma crónica da sua ascensão na Sétima Arte desde a infância londrina até ao estrelato em Hollywood, anexos que reproduzirão alguns dos cenários dos seus filmes mais famosos, onde se inclui a famosa máquina de Tempos Modernos, e claro, imagens da sua vida e obra.
No dia de Natal, inevitavelmente (e para além do nascimento de Cristo, do Pai Natal da Coca-Cola, dos presentes ou das filhoses), acabo sempre a lembrar-me de Charles Chaplin. Não apenas por ser essa a data da sua morte - o criador de Charlot faleceu na sua vivenda de Vevey na Suiça a 25 de Dezembro de 1977 com 88 anos de idade -, mas porque esse também foi o ano em que nasci: e assim tenho o privilégio de dizer que ainda partilhei no mesmo país cerca de 6 meses de existência com o cineasta que mais me marcaria em toda a minha vida (mesmo que nessa altura eu estivesse longe de saber como ou porque razão isso aconteceria). Não me custa portanto saber nesta altura quais os anos que se comemoram à passagem da morte de Chaplin: 32 (tantos quantos o meu bilhete de identidade assinala). Uma morte que veio durante o sono (não é o desejo de todos?) e que poucos meses mais tarde suscitaria um episódio caricato e digno das suas melhores comédias, mas que nos mostra igualmente bem o tipo de culto e estatuto que a sua figura ainda impunha ao fim de tanto tempo afastado do mundo e do cinema. A 1 de Março de 1978, um par de mecânicos resolveu roubar o corpo do cemitério de Corsier-sur-Vevey, no cantão de Vaud, e pedir à família um avultado resgate. Depois de inúmeras e trapalhonas desventuras (o duo não ficaria conhecido pela inteligência nem pela subtileza dos seus estratagemas) o corpo seria finalmente descoberto perto do lago Genebra, sendo a dupla presa e condenada.
A primeira vez que ouvi Fish Beach de Michael Nyman foi no célebre e visceral O Cozinheiro, O Ladrão, a sua Mulher e o Amante dela; e nunca mais esqueci aqueles acordes simples e minimais. Não imaginava, curiosamente, que o tema já tivesse integrado antes Drowning by Numbers (também de Greenaway e também em colaboração com o compositor inglês) ou que mais tarde Jay Jay Johanson o revertesse nessa genial canção que é I'm Older Now. Não sei o que isso tem a ver com o Natal, sei que tem a ver com melancolia, o amor e o cinema.
Eu tomava o café da manhã e lia o jornal. Na mesa ao ao lado, sentou-se um casal jovem com uma filha de seis ou sete anos. Mais tarde percebi que se chamava Mariana. Foi quando chorava e escondia a expressão atrás da cadeira, timidamente, entre a montra da loja de telemóveis e o olhar conformado e impotente do pai (gorro bem enfiado na cabeça, rosto esquelético, luvas pretas nas mãos). Não percebi o que lhe disse, talvez um "o que se passa, filha?" Sem gesto, sem expressão, voz desistente. A mãe (de gorro também, olhos azuis e pele muito branca) já antes disso soltara uma daquelas lágrimas instantâneas e límpidas que caem de uma vez só ao longo do rosto e aos primeiros sons do "Imagine" de Lennon (vindo de algum canto distante do centro comercial e a abrir caminho por entre o ruído das pessoas que caminhavam através do corredor). Uma lágrima daquelas que só se vê no cinema, perfeita, sibilina, brilhante, a sulcar apesar de tudo uma cara bonita. Nada a ver com as lágrimas da Mariana: vermelhas, envergonhadas, furiosamente mudas e discretas, ainda mais acomodadas naquela mesa de café do que eu no meu silêncio atento. Perguntei-me: é possível um Natal feliz depois de uma criança a chorar? Sai de lá convencido que não.
(na imagem uma foto de Diane Arbus de 1963 e intitulada "A Child Crying")
"Chaplin é a razão. E Keaton e Lloyd. Garbo, Gable e Lombard. Jimmy Stewart e Jimmy Cagney. Fred e Ginger. Eles eram deuses! E viviam ali em cima. Aquilo era o Olimpo! Lembras-te se eu te disser como nos sentíamos sortudos de estar aqui? De ter o privilégio de os ver? Esta coisa da televisão... Para quê ficar em casa a olhar para uma caixa? Por ser conveniente? Por não termos de nos vestir e ser só ficar sentados? Como podemos chamar entretenimento ao estar sozinho numa sala? Onde estão os outros? Onde está o público? Onde está a magia? Eu digo-te! Num local como este, a magia envolve-nos. O truque é vê-la."
Martin Landau para Jim Carrey em The Majestic de Frank Darabont
segunda-feira, 21 de dezembro de 2009
Também podem dar uma olhada ao trailer de Do Céu Caiu uma Estrela do mestre Frank Capra aqui (e já agora considerem-se convidados a aparecer).
É um dos grandes clássicos de sempre da História do Cinema e uma das maiores obras-primas do mestre americano Frank Capra: Do Céu Caiu uma Estrela, obra de 1946 e estreada na América do pós-guerra, é hoje exibido no Pequeno Auditório do CCC das Caldas da Rainha, pelas 21h 30, mais uma vez integrado no ciclo que decorre naquele espaço, intitulado Natal em Família, numa cópia de 16 mm que se apresenta em excelente estado de qualidade - caso raro: sendo este é um dos filmes mais injustamente esquecidos durante a época natalícia e um dos que mais dificilmente temos tido oportunidade de observar em sala de cinema (tirando talvez as mais que naturais exibições levadas a cabo pela Cinemateca Portuguesa em Lisboa).
Faz sentido, pois se existe filme natalício por excelência este é um daqueles exemplos mais óbvios e reverenciados na relação entre a Sétima Arte e o espírito da época em que vivemos. Um drama sentimental livremente inspirado no conto The Greatest Gift, escrito pelo autor Philip van Doren Stern (mas que não deixa de ter uma clara atmosfera dickensiana), onde a personagem interpretada por James Stewart (de regresso da Segunda Grande Guerra, conflito onde participou) reflecte sobre a vida e o suicídio, amor e a família, a amizade e o divino. Capra consderou-a o melhor filme que alguma vez realizara e se a verdade é que esse sentimento não impediu que resultasse num fracasso de bilheteira, o tempo acabou por lhe fazer a devida justiça, tornando-o numa obra ímpar e eterna consagrada à tradição do Natal.
David Mariano (fundador e programador da *aurora - rede criativa de programação e exibição de cinema)
Existe um “estilo português” de filmar? De contar histórias? A minha experiência de espectador de cinema e em especial de espectador de cinema português diz-me que não; não existe um “estilo português” de filmar, mas sim várias formas de expressão cinematográfica, várias formas de contar histórias, tão diversificadas quanto o número de realizadores que temos. Mais: penso até que a interrogação à volta da existência de um “estilo português”, normalmente apelidado de “lento”, “aborrecido”, “teatral”, além de recorrente, é também sintoma de um enorme equívoco que nasceu a partir do divórcio entre o público português e o cinema nacional, uma ideia completamente fora da realidade. Sei que me arrisco a ser politicamente incorrecto e a fazer estremecer algumas “virgens ofendidas”, mas estou convicto que aqueles que têm a noção de um “estilo português” são precisamente os mesmos que não vêem ou provavelmente nunca viram cinema português e raramente têm disponibilidade para o descobrir. Porque a ideia de um “estilo português” pressupõe que há um “estilo americano” ou um “estilo comercial”, ou outro, não interessa, que deveríamos adoptar como fórmula. É esta ideia de replicação que tem impedido, aliás, a justa visibilidade de cineastas como Jorge Cramez, Pedro Costa, António Ferreira, Mário Barroso, a dupla Tiago Guedes e Frederico Serra, entre tantos outros, gente com um estilo próprio, mas muito diferentes entre si. Permitam-me dar o exemplo de um dos melhores filmes que vi nos últimos anos: “O Capacete Dourado” de Jorge Cramez. Era uma obra de estreia jovem, vigorosa e emotiva. Teve pouco mais de 5 mil espectadores.
Quais as principais diferenças entre o estilo Manoel de Oliveira – que há dias fez 101 anos – e o dos jovens realizadores? As diferenças são inúmeras e não sei se deveríamos colocar a questão dessa forma, porque se o cinema de Manoel de Oliveira é indissociável da História do Cinema, seja ela nacional ou mundial, não me parece que dele dependam os nomes que têm surgindo na nossa produção recente. Naturalmente, Manoel de Oliveira é considerado o “pai do cinema português”, mas não me parece que seja uma influência mais óbvia junto dos novos realizadores do que outros grandes cineastas como Chaplin, Ford, Eisenstein, Murnau, Godard, Cassavetes, e aqui a lista poderia ser infinita, para lá ainda dos mestres da actualidade, desde David Lynch ao Tsai Ming-liang, entre muitos outros e que só eles poderão enunciar. O que sei, e mais uma vez reafirmo, é que cada um dos nossos jovens realizadores tem a sua própria identidade e visão, e se é verdade que não vivem em ilhas isoladas, ou seja, imunes a várias influências, também é um facto que não os encontramos num aquário estanque, fechados dentro de um qualquer movimento ou “estilo colectivo”.
Como se pode promover e captar mais público para a produção independente ou os jovens cineastas nacionais? Primeiro do que tudo existe uma luta de mentalidades a realizar e um processo de sensibilização cultural que urge ser feito por todo o tipo de agentes a operar no cinema e a favor da nossa produção; o país, não só no cinema, mas em muitas outras áreas sociais e culturais, vive uma verdadeira crise de identidade, aspecto que normalmente o leva a importar todo o tipo de modelos culturais estrangeiros sempre em substituição da sua própria vivência e das suas identidades, como se não nos bastasse ser nós próprios. Essas questões são muito complexas e têm sido melhor analisadas por filósofos e escritores como José Gil, Eduardo Lourenço ou até o recente Prémio Pessoa, D. Manuel Clemente. Mas acima de tudo, penso que era preciso abrir mais canais de distribuição e rentabilizar melhor os espaços culturais como os cine-teatros e os centros culturais com condições para projecção de cinema e que são geridos por municípios com essas competências. Essa pode ser uma das soluções, mas há muito mais que deve ser feito e que deveria começar essencialmente pelo debate de ideias, pela reflexão sobre as necessidades que existem, e finalmente através de uma concertação de interesses junto dos poderes públicos e institucionais.
O que é a *aurora? A *aurora é um projecto de programação e exibição de cinema pensado para a região Centro e Oeste que produz e programa ciclos de cinema ou retrospectivas de autor, e que ainda promove extensões de alguns dos melhores festivais de cinema em Portugal, a exemplo do que aconteceu com o IndieLisboa e o DocLisboa em Leiria e Alcobaça. A ideia fundamental é cultivar a cinefilia, descentralizar a distribuição de cinema, dar visibilidade a novos e velhos autores do cinema, restituir o público ao contacto com a sala de cinema, lançar o debate e a discussão sobre o poder das imagens, relançar os mitos cinematográficos, enfim, colocar a paixão do cinema sempre na ordem do dia e fazer disso quase um “estado de espírito” ou uma “forma de espiritualidade”, aspecto que julgo se tem perdido nos últimos anos por várias razões. Além de uma solução cultural para os espaços culturais com deficiências e necessidades nesse campo, a *aurora faz ainda das ideias e da criatividade um ponto de partida para criar programas e ciclos, funcionando em rede e criando relações privilegiadas com diferentes públicos e espaços: Leiria, Alcobaça, Rio Maior e Caldas da Rainha.
E assumir o papel de realizador? Quem sabe; não desminto que seria algo que gostava de arriscar fazer, e onde não duvido me sentiria bem. O desejo, as ideias, esboços de argumentos e imaginário não me faltam, mas o cinema é uma arte onde é preciso reunir uma série de elementos e circunstâncias a que não basta emprestar a paixão ou o talento. Também é necessário criar experiências e obter alguma formação e principalmente ver muito cinema. Espero apenas um dia ter uma melhor resposta do que esta.
Entrevista por Jacinto Silva Duro (para a edição de 17 de Dezembro de 2009)
É já daqui a pouco no CCC das Caldas da Rainha: Feliz Natal de Christian Carion abre hoje o ciclo Natal em Família, pelas 21h 30, no Pequeno Auditório. Esta obra, inspirada numa história verídica decorrida durante a Primeira Guerra Mundial na noite de Natal de 1914 e que recebeu uma nomeação para o Óscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2005, inaugura assim um programa dedicado ao espírito da época, olhando-o como um lugar de comunidade, de família, de partilha, de transcendência e de contacto, composto por filmes de várias idades e para várias idades, clássicos e contemporâneos e que fazem do Natal um universo intemporal e de renovação dos grande valores humanos. Dêem uma olhada ainda ao folheto e apareçam. E já agora, Feliz Natal!
A *aurora é uma rede criativa de programação e exibição de cinema que aposta em trazer às salas e aos espaços culturais da região Oeste todas as obras de relevância histórica e artística que muitas vezes temos dificuldade em observar no grande ecrã.
slogan
uma nova ideia de programação,
uma nova forma de olhar o cinema
agenda
Ciclo de Cinema
Cinema e Literatura
em colaboração com o XVIII Festival de Música de Alcobaça - Cistermúsica
Cine-Teatro de Alcobaça Alcobaça
18 > 26 de Julho
domingos e segundas
A história das relações entre a literatura e o cinema tem sido um caso quase tão antigo quanto a própria história das imagens em movimento, um mundo em certas ocasiões povoado de equívocos, noutros momentos marcado por desfechos felizes.
Talvez por isso, porque a palavra e o texto literário nunca deixaram de ter o poder de suscitar imagens e oferecerem-nos narrativas, a Sétima Arte pela mão dos seus maiores cineastas foi sempre buscar ao campo da literatura o melhor que esta tinha para oferecer.
Mais uma vez em colaboração com a actual edição do Cistermúsica, a rede *aurora apresenta o ciclo Cinema e Literatura, uma iniciativa que responde não apenas ao lema do festival, procurando evocar alguns dos melhores episódios de adaptações literárias no universo do cinema ao longo das últimas décadas, mas que representa ainda uma homenagem ao melhor que o cruzamento entre estas duas artes nos ofereceu.
em cartaz
programa
O Leopardo de Luchino Visconti domingo 18 de Julho 21h 30
Um dos maiores filmes do mestre italiano Luchino Visconti, esta adaptação da obra homónima de G. Tomasi di Lampedusa venceu a Palma de Ouro de Cannes e contou com interpretações de Burt Lancaster, Alain Delon e Claudia Cardinale.
O Desprezo de Jean-Luc Godard segunda 19 de Julho 21h 30
Adaptação de um dos grandes romances do escritor italiano Alberto Moravia por Jean-Luc Godard, um dos magos e mentores da Nouvelle Vague, com a presença mítica de Brigitte Bardot, Michel Piccoli, Jack Palance e Fritz Lang.
Washington Square domingo 25 de Julho 21h 30
Revisão de uma das melhores obras de Henry James, um dos escritores norte-americanos mais proeminentes do séc. XIX, realizado pela cineasta polaca Agnieszka Holland e com interpretações de Jennifer Jason Leigh e Albert Finney.
Morte em Veneza segunda 26 de Julho 21h 30
Baseado no clássico da literatura do escritor germânico Thomas Mann, uma das adaptações mais apaixonadas de Luchino Visconti, que resulta numa profunda reflexão sobre a arte e a vida, a beleza e a morte, ao som de Gustav Mahler.
Filme-concerto
Aurora
Cine-Teatro Avenida Castelo Branco
11 de Setembro
sábado
Considerado uma obra-prima absoluta do cinema e um dos mais belos filmes alguma vez feitos, Aurora é um prodígio visual e narrativo que continua a entusiasmar espectadores e comunidade cinéfila ao fim de mais de oito décadas.
O filme-concerto que nos oferece agora a oportunidade de rever este clássico da Sétima Arte não procura apenas transportar para o presente uma técnica comum aos primórdios do cinema: a interpretação ao vivo de uma banda sonora durante a exibição de filmes mudos.
A 3ª edição de 8 ½ Festa do Cinema Italiano vai ficar marcada pela presença de grandes realizadores do novo cinema italiano e pela exibição de filmes em ante-estreia nacional..
Matteo Garrone, galardoado em inúmeros festivais com o filme Gomorra (Grande Prémio do Festival de Cannes 2008, Prémio Europeu do Cinema 2008), que estará em Lisboa nos dias 23 e 24 de Maio, será um dos realizadores que 8 ½ homenageia em 2010 com uma retrospectiva completa.
O mesmo acontecerá com Marco Bellocchio que chega à capital no dia 20 de Maio para inaugurar um ciclo que a Cinemateca Portuguesa – Museu do Cinema lhe dedica, com o seu primeiro filme Pugni in Tasca, de 1965.
No dia 21, o realizador estará presente na sessão de abertura do 8 ½ Festa do Cinema Italiano, para apresentar em ante-estreia nacional o seu mais recente filme Vincere, nomeado para a Palma de Ouro do Festival de Cannes em 2009.
Doc’s Kingdom 2010
Seminário International sobre Cinema Documental
16 > 20 Junho
Serpa
O Doc’s Kingdom é um encontro de visionamento e discussão sobre o documentário contemporâneo que se oferece como alternativa à dimensão quantitativa dos festivais. Desde a sua primeira edição, em 2000, o seminário mantém as características distintivas que lhe estiveram na base: um mesmo grupo ê alguns filmes fortes e diversos ao longo de quatro ou cinco dias e conversa informalmente sobre eles.
O Doc’s Kingdom realiza-se em Serpa, no Baixo Alentejo, região ainda bem preservada onde resiste uma cultura popular e que proporciona um ambiente convidativo à reflexão e troca de ideias. A referência-tributo inscrita no nome tem dimensão programática: o filme homónimo de Robert Kramer, rodado em Portugal na década de oitenta, é uma obra de quem filmou sempre entre o documentário e a ficção e a questionar o próprio gesto de filmar.
dvd
o laço branco
de Michael Haneke
Clap Filmes
depois das aulas
de António Campos Midas Filmes
old joy
de Kelly Reichardt Alambique Filmes
cinzas e sangue
de Fanny Ardant
Clap Filmes
pack werner schroeter
O Rei das Rosas Duas Esta Noite
Clap Filmes
caixa heddy honingmann
Metal e Melancolia O Amor Natural Para Sempre O Olvido Midas Filmes
eric rohmer - provas abonatórias
de André S. Labarthe
Midas Filmes
a vida é doce
de Mike Leigh Midas Filmes
nu
de Mike Leigh Midas Filmes
raparigas de sucesso
de Mike Leigh Midas Filmes
Pack Eric Rohmer: O Moderno
4 Aventuras de Reinette e Mirabelle
A Árvore, o Presidente e a Mediateca
Os Encontros de Paris
Clap Filmes
Pack Eric Rohmer: Comédias e Provérbios
A Mulher do Aviador
O Bom Casamento
Paulina na Praia
Noites de Lua Cheia
O Raio Verde
O Amigo da Minha Amiga Clap Filmes
pack eric rohmer: Contos das 4 Estações
Conto de Primavera
Conto de Outono
Conto de Inverno
Conto de Verão
Midas Filmes
a marquesa d'o
de Eric Rohmer
Midas Filmes
perceval, o gaulês
de Eric Rohmer
Midas Filmes
o signo do leão
de Eric Rohmer
Midas Filmes
estante
como triunfar como Argumentista
Linda Seger
Edições Cine-Clube de Avanca (2008)
240 páginas
Uma obra destinada a despertar a criatividade, mas também a ensinar ao aspirante a escritor o processo do acto criativo no contexto da escrita de argumento. Aqui, Linda Seger combina ferramentas para pensar e escrever de forma mais criativa com o saber-fazer da profissão de argumentista.
Um livro que proporciona o conhecimento necessário para escrever argumentos de cinema e televisão ao mais alto nível, através da experiência e dos conselhos de Linda Seger, autora de vários “best-sellers” sobre argumento e realização, tendo em 1981 criado e definido a profissão de consultor de argumentos.
Desde então, já trabalhou como consultora em mais de 2000 argumentos de cinema e televisão e deu formação nas mais variadas e reputadas instituições de cinema americanas (tais como ABC, CBS, NBC, Disney, Turner Network, Motion Picture Academy, Directors Guild, Writers Guild e American Film institute), assim como em empresas do mundo inteiro.
O Argumento Cinematografico
de Dominique Parent-Altier Edições Texto & Grafia (2009) 144 páginas
Texto escrito para ser filmado, obra por definição invisível, o argumento presta-se a uma análise rigorosa, aqui conduzida através de cinco grandes eixos: a escrita, o enredo, a personagem, o conflito e a estrutura. Para além das regras formais desta actividade, este manual procura ainda oferecer ao leitor uma compreensão coerente dos fundamentos teóricos e práticos do argumento.
Apoiando-se em exemplos de filmes que pertencem, na sua maioria, ao cinema popular contemporâneo, este livro - o primeiro no mercado português - explora as funções dramatúrgicas, os princípios e as tradições que influenciam a escrita do argumento, e vem responder a uma procura crescente por textos de formação nesta área.
lista de espera
todos os outros
de Maren Ane
wishky
de Juan Pablo Rebella e Pablo Stoll
wall street - o dinheiro não pára
de Oliver Stone
canino
de Yorgos Lanthimos
o caso farewell
de Christian Carion
partir
de Catherine Corsini
brooklyn's finest
de Antoine Fuqua
creation
de Jon Amiel
cell 211
de Daniel Monzón
em inglês, s.f.f.
de Armando Iannucci
machete
de Robert Rodriguez
b.s.o.
A Missão de Ennio Morricone Virgin Records
Não é um nome qualquer, é um nome a que qualquer cinéfilo ou apreciador de música que se preze naturalmente se verga sempre que o ouvimos e nunca talvez nos tenhamos vergado tanto ao nome de Ennio Morricone como na banda sonora de A Missão , filme realizado por Roland Joffé (hoje um cineasta esquecido e eclipsado) que conseguiu vencer a Palma de Ouro de Cannes no seu ano, obra a operar no limiar da perfeição a capacidade do compositor italiano combinar grandes arranjos orquestrais com melodias simples e belas.
Aqui a música não é só uma das grandes personagens desta história, ao lado de Jeremy Irons, Robert De Niro e das cataratas na selva na Amazónia - pois é pela música que os missionários chegam à alma dos indígenas que pretendem converter à fé cristã - como se transforma ainda numa ponte entre os homens, abrindo caminho à relação espiritual entre a alma e a natureza e provando que a arte musical pode ser uma verdadeira janela para o divino.
vintage
Foxy Brown
(Foxy Brown, 1974)
de Jack Hill
Um clássico da blaxploitation e um dos mais influentes filmes dentro deste género, Foxy Brown foi escrito e realizado por Jack Hill que inicialmente tinha pensado fazer desta obra uma sequela do seu filme anterior; Coffy (1973), título que contara igualmente com a presença de Pam Grier no papel principal e havia constituído um enorme êxito.
Para a história fica mais uma vez o contributo da actriz Pam Grier, cuja interpretação e corpo deu à personagem um estatuto único, muitas vezes considerado como o arquétipo fundamental do género, um símbolo que não poucas vezes foi encarado como um símbolo do poder feminista, capaz de transcender a sua época e ainda hoje considerado por muitos como um dos primeiros filmes da blaxploitation a proporcionar o retrato de uma mulher forte e independente.