quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Cultura: Negócio da China


Cultura: Negócio da China

Não é novidade para ninguém falar-se em Alcobaça como uma cidade de cultura (e muito menos para os habitantes locais). Mais do que o turismo, mais do que o artesanato, mais do que a agricultura, mais do que a cristalaria, mais do que a cerâmica ou qualquer outro tipo de indústria local, a grande vocação da cidade sempre se prendeu com a cultura. E dizemos isto porque sabemos bem no nosso íntimo que todas estas actividades, fundamentais para a economia local, para a sua afirmação na região, marcas de prestígio ao nível nacional e internacional, indutoras de emprego e dinamismo económico, foram naturalmente uma consequência directa dessa lei básica: a tradição cultural.

Mas como?, perguntarão os mais incrédulos. Porque os produtos ou serviços sempre nasceram das ideias. E as ideias que nascem da criatividade foram sempre buscar a sua capacidade de fantasiar ao conhecimento, à memória, a tudo o que se leu ou ouviu, ao passado (um passado que no caso de Alcobaça recua à própria fundação do país), a essa soma de elementos que, hélas, origina a cultura (não é a cultura aquilo que se faz com o a memória e o conhecimento?). Claro que há aspectos que remontam à própria génese histórica de Alcobaça, nomeadamente através da fundação do Mosteiro de Santa Maria há mais de 8 séculos (e isto quer queiramos quer não, tem peso, mesmo para o alcobacense que nunca tenha posto um pé lá dentro), talvez a primeira grande sede de conhecimento e cultura no pais: uma espécie de choque tecnológico" da época e que muitos (garantimos que esta teoria não só não é nossa tal como não é original) admitem ter levado o país à glória dos Descobrimentos.

Mas se Alcobaça tem artistas, criativos, iniciativas ou instituições como poucos concelhos da sua dimensão (ou maiores até), por outro lado continua a existir nela ainda pouca consciência do valor dessa tradição (um problema que não é só local, mas nacional, diríamos) e da potencialidade económica e financeira que pode gerar. O cliché vetusto que diz que a cultura apenas representa custos e prejuízos é uma das maiores falácias dos dias de hoje (além de um sinal de demência, arriscamos) e bastaria mencionar a ascensão e os estudos sobre as indústrias criativas e as cidades culturais para provar que a cultura pode ser, e em muitos países da Europa já o é, uma solução para a crise e para desenvolvimento (logo para o desemprego, logo para a depressão económica).

Uma solução que sobretudo tem a vantagem de coadunar-se com as mais diversas áreas e actividades (já o dissemos: uma boa ideia é uma boa ideia, seja aqui ou na Conchichina), através de vertentes tão flexíveis como o marketing, o design, a tecnologia ou o puro entretenimento. Agora, não vamos dizer que não nos assusta vivermos num concelho onde o poder local (apesar de grandes apostas e uma notória evolução) não ter sido ainda capaz de o afirmar como uma prioridade clara aos seus desígnios políticos - de o "institucionalizar", verdade seja dita.

E contudo, é a cultura a única que consegue encher a grande praça do Rossio (30 mil pessoas: aconteceu com Amália Hoje, projecto que inclui dois artistas locais, vai voltar a acontecer com a mostra Rabiscuits que povoa o mesmo espaço de obras de arte experimental, acontece todos os anos com Festival Cistermúsica, sem esquecer a contribuição de todos os outros: músicos, escultores, fotógrafos, bailarinos, escritores, historiadores, designers, etc., ao longo do ano). Não estamos a inventar a pólvora, mas este - a "cultura" - pode ser o negócio da China de que todos andam insistentemente à procura fora das fronteiras do concelho: e que afinal está mesmo ali ao virar da esquina, em qualquer um dos artistas e criativos que circulam por Alcobaça - e asseguramos: a quem não faltam ideias para virar o mundo do avesso (coisa que como todos nós bem sabemos o mundo anda precisado como de pão para a boca).

No ponto

A mostra de arte experimental Rabiscuits que durante o próximo fim-de-semana vai tirar Alcobaça do tédio e da obscuridade em que muitas vezes se compraz começou de mansinho e timidamente há 4 anos: hoje é uma amostra viva e clara do que os artistas são capazes de fazer e de como a união das suas expressões e criações podem elevar a moral de uma cidade. E ainda de como cada um de nós pode ser um artista (coisa que não deixa de ter o seu valor terapêutico).

Em banho maria

Tem-se discutido muito sobre o destino dos espaços devolutos do Mosteiro de Alcobaça e qual a melhor solução para restaurar e preservar tão “digno” património. Hotel de charme, Pólo Universitário, Centro de Congressos, Museu, Fundação, tudo muito bem. Já a transferência dos Serviços da Câmara, parece-nos abusivo. Ora, se temos a boa experiência que resultou da CeDeCe, porque não pensar o monumento também como um espaço para residências artísticas? Mais do que dignidade, o Mosteiro precisa de gente viva e irrequieta.

Requentado

A relação dos políticos com a cultura é um pouco como a do “emplastro do FCP” com a televisão. Quando as objectivas estão lá, fazem tudo para entrar no plano, quando não estão, nunca se sabe muito bem onde é que param. Não basta uma frase ou duas nos programas de campanha a enaltecer a importância da cultura e dos artistas. Diga-se o que quer, para onde se quer ir e o que pretendem fazer por isso.

David Mariano (publicado no Jornal de Leiria no passado dia 17 de Setembro na rubrica Advogado do Diabo)

sábado, 26 de setembro de 2009

Pequenos ecos da imprensa local


Depois do artigo publicado a semana passada na rubrica Advogado do Diabo (que todas as edições entrega aquele espaço de opinião a um convidado), esta semana a edição do Jornal de Leiria volta a referir, de forma discreta, é certo, o trabalho da *aurora num pequeno artigo sobre a dinâmica dos agentes culturais na região, e cujo título vale pela evidência: Cultura já não espera pelo Estado.

Num caso e noutro (o autor da peça apelida-nos de movimento, já o músico Nuno Gonçalves fala em associação), as denominações não correspondem bem à realidade, embora não sejam desprovidas de algum sentido e pertinência. Em termos correctos, a verdade é que somos uma "rede de programação e exibição de cinema" (talvez o título seja um pouco longo, mas é isso, no fundo, que melhor nos define); e ainda que o nosso trabalho possa igualmente ser entendido como um "movimento" (tendo como alvo a cinefilia e uma maior promoção da relação do cinema com os espectadores) e como uma "associação" (com os vários espaços culturais e salas de cinema, além de outras instituições e entidades culturais), não deixa de ser interessante que a *aurora começa ao fim de poucos meses a entrar no léxico das dinâmicas culturais da região.

(clicar na imagem para ler o artigo na íntegra)

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Pedro Costa: o Samuel Beckett do cinema?


Hoje é um dia feliz para o cinema português: O Sangue de Pedro Costa tem cópia nova e está desde hoje em reposição nos cinemas UCI El Corte Inglés. Fulgurante obra de estreia do cineasta (e um dos mais invulgares autores contemporâneos do nosso país), este acontecimento serve um pouco de aperitivo para aquela que será a apresentação da última obra do realizador em Novembro: Ne Change Rien, apresentado na Quinzena dos Realizadores em Cannes, e que contará na estreia por cá com a presença da actriz Jeanne Balibar.

Também ontem, a acompanhar esta reposição, foi apresentada na Cinemateca Portuguesa a monografia cem mil cigarros – Os Filmes de Pedro Costa, uma edição de mais de 300 páginas com textos de 28 críticos, ensaístas, realizadores e artistas de todo o mundo, coordenada por Ricardo Matos Cabo e publicada pelas edições Orfeu Negro.

Mais: o realizador português vai ter uma retrospectiva integral na Tate Modern, em Londres a partir do dia de amanhã, 25 de Setembro, e até 4 de Outubro. Na imprensa, por lá, clamor também não lhe falta: a revista Sight & Sound dedica-lhe um longo dossier de 6 páginas, isto a par do diário The Guardian, um dos mais prestigiados jornais britânicos, que vai anunciando no título do artigo que dedica a Pedro Costa que este é o Samuel Beckett do cinema. Ainda amanhã, e conforme já deu para dar uma olhadela, o Ípsilon, suplemento do Público, dedica-lhe a sua capa (o que significa que lhe dedicará muitas páginas no seu interior).

Maria do Mar em Leiria


Vamos estar lá: Maria do Mar, clássico intransponível do cinema mudo português, é projectado amanhã, pelas 21h 30, no Teatro José Lúcio da Silva em Leiria. Um acontecimento raro, alertamos, porque esta obra-prima de Leitão de Barros será musicada ao vivo por Bernardo Sassetti, que é não só um dos nossos maiores pianistas vivos, mas ainda um dos mais criativos autores de bandas sonoras do cinema nacional, aqui acompanhado pela Orquestra Filarmonia das Beiras, dirigida pelo maestro Vasco Pearce Azevedo, e pela voz de Filipa Pais.

Vários factos tornam este espectáculo num evento único e privilegiado: primeiro, a possibilidade de observar em cópia restaurada pela Cinemateca Portuguesa um dos filmes mais incontornáveis da História do Cinema Português, segundo, combinar esse olhar com a particularidade feliz deste filme ter sido rodado na Nazaré numa época remota que regista as características daquela comunidade piscatória (e que tão bem conhecemos pela proximidade que dela temos). E depois, porque Maria do Mar cruza elementos de verdadeiro modernismo através da aliança entre o documentário e a ficção que a tornaram num fragmento da realidade humana daquele lugar e daquele tempo. Coisas que nunca passam de moda.

Bergman a quem oferecer o valor mais alto


São 339 objectos segundo o Público: Ingmar Bergman vai a leilão, tal como era o seu desejo (ao que consta expresso no seu testamento), para evitar que a família se zangue no capitulo das partilhas. Já se sabe:o dinheiro é mais cómodo e divide-se melhor que qualquer objecto deixado em herança - é uma questão de pura matemática. E por uma questão de matemática financeira, portanto, será possível então adquirir no no próximo dia 28 de Setembro em Estocolmo, na Suécia, através da Bukowski; móveis (caso da escrivaninha onde escreveu os seus argumentos), quadros, prémios de cinema e de teatro (um globo de ouro), bibelots ou até as célebres peças de xadrez usadas no filme O Sétimo Selo. Bergman, com certeza, deve estar lá em cima a achar muita piada a tudo isto.

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

A isto ele chama realismo


"A vida é muito dura, muito agreste, brutal, curta de mais, feia e má, e, no fim, não há esperança que nos salve. A isto eu chamo realismo."

Woody Allen em entrevista ao semanário Expresso

terça-feira, 8 de setembro de 2009

Tarantino loves "girl power"


E talvez ainda nos falte dizer isto de Inglourious Basterds: este é um filme onde Tarantino volta a mostrar um especial fascínio por personagens femininas fortes, fazendo de Shosanah (Mélanie Laurent), mais uma vez, a verdadeira heroína da sua história. É a ela quem cabe grande parte do protagonismo (o episódio da troupe louca liderada por Brad Pitt é bastante mais acessório, quase uma espécie de plot que decorre em segundo plano) e é ela quem colhe boa parte da atenção e do fascínio da câmara. Mais: é ainda a ela que é entregue o papel de grande "avenger" e de quem parte a ideia e a consumação do plano que incinerará Adolph Hitler e companhia (um plano que ela leva às últimas consequências também naquele "insert" de película durante a sessão de cinema). Basta olhar um pouco para trás e para os últimos filmes de Tarantino para nos apercebermos como este fascínio tem sido recorrente. Jackie Brown (Pam Grier) talvez seja o primeiro caso onde esse gesto mais se torna evidente e que mais tarde conheceu novos capítulos em obras como o díptico Kill Bill, interpretado por Uma Thurman, ou em À Prova de Morte, cujo trio formado por Zoe Bell, Mary Elizabeth Winstead e Rosario Dawson é porventura o ponto mais alto onde o "girl power" tarantinesco se exprime.

A Leste de Elia Kazan (mas não muito)


Foi assim com Alfred Hitchcock, não poderia ser de outra maneira com Elia Kazan (a nossa falta de talento para datas, e pior do que isso, para datas de aniversário dá-nos para isto: estamos sempre a chegar atrasados aonde deveria ser a festa - com Hitch foram 5 dias de atraso, com Elia deixámos passar um dia, o que significa que estamos a melhorar). Alertados pela blogosfera, apercebemo-nos então de que Kazan (um daqueles nossos cineastas que gostávamos de partilhar com toda a gente: quem disse que a cinefilia não pode ser generosa?) teria feito ontem 100 anos caso fosse vivo (faleceu a 28 de Setembro de 2003).

Mas vivos estão em nós, apesar de tudo, filmes como Esplendor na Relva, América, América, Viva Zapata!, Um Eléctrico Chamado Desejo (cuja cassete vídeo ganhámos num passatempo da TVI há uns anitos, obrigado Lauro António), Um Rosto na Multidão, A Leste do Paraíso, Quando o Rio se Enfurece ou Há Lodo no Cais. Um grande, grande realizador, que durante a cerimónia dos Óscares em 1999 (onde recebeu uma estatueta pelo conjunto da sua obra) nos pôs de pé atrás com gente como Ed Harris, Sean Penn ou Nick Nolte, nomes que protestaram contra o prémio acusando-o de ter apoiado o macartismo (a questão é polémica e fica ao juízo de cada um, o que não gostamos de ver foi o ressentimento daqueles actores).

Ora, uma das questões que também nos apeteceria colocar era a seguinte: o que foi feito da memória deste cineasta e da sua obra? Porque razão deixámos de ter contacto (não é o único, assim de repente também nos lembramos de Capra) com os seus filmes (seja no mundo estéril das reposições, seja na própria televisão)?

domingo, 6 de setembro de 2009

Chaplin em Inglourious Basterds



Há um momento em Inglourious Basterds que Tarantino põe um soldado nazi (Daniel Bruhl) a discursar sobre Chaplin e o seu The Kid; de como a cena da perseguição e do resgate do pequeno Jackie Coogan por Charlot se trata do momento mais alto do filme e certamente uma das maiores da sua carreira (uma cena que por exemplo eu guardo desde os meus quatro ou cinco anos: é assim com Chaplin, fica-nos na pele) - mas saber que Tarantino gosta de Chaplin e gosta de The Kid ao ponto de também o citar numa obra sua é ainda uma das coisas mais reconfortantes que é possível sentir neste tempo em que vivemos.

sábado, 5 de setembro de 2009

A assinatura de Quentin Tarantino


Dá um gozo enorme ver Inglourious Basterds só por isto: Quentin Tarantino é a personagem principal da sua própria obra. Mesmo que nunca apareça, mesmo que se mantenha na sombra, mesmo que se limite a comandar tudo dos bastidores (de modo que não nos parece por acaso que uma das suas personagens centrais, Shosannah, tenha um momento em que diga que ali na França se dá muita importância aos realizadores: que é outra maneira de dizer que se dá muita importância aos autores, ou seja, à sua assinatura, evocando pelo meio a tradição cinéfila que desaguaria nos famosos Cahiers du Cinema e mais tarde na Nouvelle Vague). Como se afirmasse: só o realizador pode ser o grande, o derradeiro, e quem sabe, o único intérprete do seu filme.

A forma como o cineasta norte-americano faz da II Guerra Mundial um cenário para a sua bricolage de referências cinéfilas e pequenos sadismos, o gozo que tem em brincar aos soldadinhos em missão atrás das linhas inimigas, pondo ainda o dedo na ferida judaica, no trauma do Holocausto, e expondo a cobardia e a hipocrisia francesa durante o conflito, tudo isto aliado à tendência que mostra para ajustar contas com a própria História (editada segundo os seus próprios desejos, os seus próprios delírios), é, digamos, a marca do filme. E vale a pena sublinhar a palavra "marca" porque é da importância disto (a marca como autoria ou a autoria como marca) que interessa a Tarantino impôr - nesse sentido este é também um filme sobre o Cinema (assim mesmo, com maiúscula) e sobre a capacidade deste resistir a todos os totalitarismos, de forma literal contra o nazismo, de forma metafórica contra a ascensão do digital face à película 35mm (razão porque aquele cinema de Paris onde Hitler e toda sua vasta e impressionante galeria de acólitos se reúnem - Goebbels, Goering, entre muitos outros - acaba por se tornar numa simbólica fornalha que os destrói a todos: facto devido não apenas à deflagração da película de nitrato, mas reiterando igualmente o seu potencial como arma de guerra).

Mais: tem-se falado muito no poder da palavra que Tarantino faz uso, e é verdade, a palavra é neste caso, e mais uma vez, um dos seus destacados instrumentos, o qual serve para estimular e ao mesmo tempo estender (ao ponto da insustentabilidade e do sufoco, diríamos) a tensão dos diálogos (sempre geniais, sempre hipnóticos) ou das cenas a limites que em muitos momentos raiam o absurdo, o irónico e o lúdico. Uma tensão que aponta inevitavelmente para uma distensão e que encontra na explosão da película de nitrato e da dinamite (no cinema), nos tiroteios (na cave do bar parisiense) ou na pancada de um simples taco de basebol (em cheio na cabeça de um prisioneiro nazi) uma dimensão súbita e violenta, contudo cataclísmica, imponente e claramente libertadora. Este tipo de exuberância que provém obviamente do seu talento como dialoguista e do perfeito domínio do texto tem um eco visual que provavelmente não existirá em mais nenhum outro filme de Tarantino. Talvez nunca a relação entre palavra e imagem, entre literatura e cinema, tenha encontrado como acontece em Inglourious Basterds um tão perfeito clímax e uma tão sentida harmonia. É, aliás, na cena final (em que Aldo Raine desenha a sua última suástica na cabeça do nazi interpretado por um soberbo Christoph Waltz) que o jogo entre símbolo e significado encontra a sua mais pura consumação. Num mundo sem identidades, onde não exista "marca" ou "assinatura", onde seja impossível distinguir o bom do mau, o Bem e o Mal, sem autores, portanto, esse é um mundo onde não é possível viver.

Tão simples quanto isto: a assinatura de Quentin Tarantino é uma suástica cravada na testa de um nazi. E sim, caro Tarantino, esta é bem capaz de ser a tua obra-prima.

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

O trailer de A Estrada



E aqui está o novo trailer da adaptação ao cinema do livro A Estrada de Cormac McCarthy realizado pelo cineasta John Hillcoat (somos sinceros: não gostamos do tom "filme-catástrofe" que traz e se bem conhecemos o universo do escritor norte-americano isso é o que menos interessa). O filme será hoje exibido no Festival de Cinema de Veneza e as opiniões parece que se tem vindo a dividir, entre outros problemas.

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Sylvester Stallone, um autor?


Sim, nós também acreditamos que Sylvester Stallone possa ser um autor no mais antigo festival de cinema do mundo (isto em resposta à pergunta de Vasco Câmara aqui). Não apenas por saber escrever, dirigir e interpretar os seus próprios filmes. Mas essencialmente por isso ter resultado em obras como Rocky, Rocky II e Rocky Balboa, F.I.S.T., Rambo: A Fúria do Herói e John Rambo. E depois porque ainda soube defender aquele penalty no último minuto de Fuga para a Vitória de John Huston (uma história que na realidade não teve final feliz).

"I'll be there"


"I'll be all around in the dark - I'll be everywhere. Wherever you can look - wherever there's a fight, so hungry people can eat, I'll be there. Wherever there's a cop beatin' up a guy, I'll be there. I'll be in the way guys yell when they're mad. I'll be in the way kids laugh when they're hungry and they know supper's ready, and when the people are eatin' the stuff they raise and livin' in the houses they build - I'll be there, too."

Henry Fonda em As Vinhas da Ira (1946) de John Ford

Aceitam-se reservas no MOTELx


Inicia-se hoje a 3.ª edição do MOTELx - Festival Internacional de Cinema de Terror de Lisboa que até ao próximo dia 6 de Setembro decorre no Cinema São Jorge (uma sala à antiga para um género antigo e com muita tradição) e que já teve uma sessão pela manhã dirigida aos mais novos (integrada na secção Lobo Mau) através do filme Nocturna, uma animação espanhola de 2007 escrita e realizada pela dupla Adrià García e Victor Maldonado. Contudo, é hoje à noite que se dá o verdadeiro arranque com a sessão de abertura que mostrará o filme Rogue de Greg McLean, o mesmo realizador de Wolf Creek que aqui volta a recolocar a Austrália no mapa do terror internacional e consegue ser ainda uma homenagem à sua terra natal. Mas claro, depois ainda há Stuart Gordon, John Landis, The Legendary Tigerman & Rita Redshoes em filme-concerto, curtas portuguesas em competição, sessões da meia-noite, entre muitos outros terrores que podem (e devem) ser consultados aqui.

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Shortbus de John Cameron Mitchell


Termina hoje o ciclo de cinema Sexo: O Último Tabu no CCC das Caldas da Rainha com o filme Shortbus de John Cameron Mitchell, uma das obras mais recentes de todas aquelas que completaram o programa e porventura a que nos apresenta um olhar mais bem-humorado e descomplexado sobre a própria temática (sem que com isso deixe de ser um título que trate das questões mais complexas do sexo com a mesma profundidade e agudeza que os anteriores). Contudo, Shortbus é um filme diferente na abordagem e no estilo: mais divertido, mais livre, mais desassombrado e menos dramático, menos grave, menos sombrio. Um filme que tem a capacidade de não se levar muito a sério (o que lhe dá uma ligeireza sedutora que nunca, mas nunca, se transforma em condescendência). A dada altura, uma das velhas personagens que compõe a clientela do clube que dá o nome ao segundo opus da carreira de Cameron Mitchell diz: "Nova Iorque é o sítio para onde as pessoas vêm para ser perdoadas". Poderia ser também uma boa definição para o filme e para as personagens que o integram, sendo aqui o "perdão" um aspecto importante no capítulo que o desejo representa para estas pessoas que procuram simplesmente ser felizes num mundo que por vezes lhes é adverso. Mas uma coisa é certa, mais do que o sexo ou a sua explicitação no grande ecrã, chegamos aqui para perceber que tudo se resumiu no fundo a isso: à busca da felicidade e do amor.

sábado, 29 de agosto de 2009

A estreia de Moon



Gostávamos de juntar a nossa voz à do Nuno Galopim que no blogue Sound & Vision tem andado a pedir a estreia entre nós de Moon (filme de estreia de Duncan Jones que parece vir recheado de grandes referências da ficção científica e que ao que consta oferece ainda um grande desempenho de Sam Rockwell). Não é pedir muito, ainda mais no ano em que se comemoraram as celebrações da ida do Homem à lua e quando são tão raras as estreias de ficção científica (e mais raras ainda aquelas que anunciam serem obras de qualidade). Já pusemos a hipótese de inaugurar no facebook uma daquelas causas a exigir "queremos a estreia de Moon nas salas de cinema portuguesas" na esperança que o movimento convença algum distribuidor. Só que não temos paciência para isso: um filme deve valer por si próprio e não viver a reboque da condescendência alheia. Se o Nuno nos adverte que o filme de Duncan Jones é a melhor "sci-fi" que viu desde Gattaca e Dark City (então e o Solaris do Soderbergh?), nós acreditamos.

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Vem aí a versão negra d'O Feiticeiro de Oz


A Warner Bros anda por aí anunciar uma versão negra do clássico de Victor Fleming O Feiticeiro de Oz e uma das opções em cima da mesa para interpretar o papel principal parece ser a actriz Dakota Fanning. Segundo o Guardian, há mais novidades: a acção da história passa para a nossa actualidade e em vez de termos Dorothy como a personagem central será a sua neta a tomar as rédeas do enredo. O que quer dizer (detalhe importantíssimo) que não estamos perante um remake, mas sim de um "upgrade". Mas não um "upgrade" qualquer, já que um dos produtores, Todd McFarlane, insiste no "dark side" desta versão: "continuamos a ter Dorothy presa num lugar estranho, mas ela está muito mais próxima da personagem Ellen Ripley de Alien: O 8.º Passageiro do que da jovem e indefesa rapariga que canta." Medo, tenham muito medo.

Uma história de piratas


Steven Spielberg vai adaptar ao cinema uma história de piratas baseada no último livro de Michael Crichton: peça que o escritor e realizador norte-americano deixou por terminar após ter falecido o ano passado. Pirate Latitudes (é este o título da obra inacabada) é uma história que anda por volta do ano de 1665 e tem como cenário a costa jamaicana. Claro que não é só isto: há um galeão espanhol carregadinho de ouro e um plano para atacar os seus porões (como não podia deixar de ser). Mas o mais interessante no seio deste projecto é que Spielberg volta a escolher o argumentista David Koepp (na imagem acima) para trabalhar no guião, reeditando uma relação que conheceu episódios bem sucedidos em Parque Jurássico e Mundo Perdido (também adaptações de livros de Crichton) ou Guerra dos Mundos e Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal (na nossa modesta opinião um dos filmes mais inteligentes dos últimos anos e não apenas um entretenimento de época). Crichton, Koepp e Spielberg: uma fórmula que promete não falhar. E ainda há os piratas.

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Breillat e a polémica de Braga


Já agora, lembram-se da polémica que estalou há uns tempos em Braga, a respeito de um livro que expunha os meninos daquela cidade aos perigos "púbicos" de uma imagem capaz de revelar de forma absolutamente frontal e despudorada as virtudes do órgão sexual feminino? O acontecimento chegou a ser notícia de abertura nos noticiários televisivos e demonstrou bem a compulsão pidesca de alguma da nossa polícia: tratava-se de uma pintura de Gustave Courbet (A Origem do Mundo, 1866) reproduzida na capa de Pornocracia, livro de Catherine Breillat que a PSP de Braga apreendeu na feira do livro local com a desculpa de se estar perante um sério “perigo de alteração da ordem pública”.

Na altura, os diligentíssimos agentes decidiram-se por isto: apaziguar a moral ofendida de alguns pais incapazes de lidar com a "perversa" curiosidade dos seus filhos em troca da liberdade de expressão e do direito de venda daquele título num espaço perfeitamente adequado a isso. Isto apenas para dizer como este é um dos pequeníssimos exemplos da capacidade que Breillat tem de estimular a controvérsia, mesmo quando não quer, mesmo quando nada tem a ver com a história.

Romance de Catherine Breillat


Hoje temos mais um filme do ciclo Sexo: O Último Tabu que tem vindo a decorrer no Centro Cultural e Congressos das Caldas da Rainha sob a nossa chancela: Romance é apresentado pelas 21h 30 e é um filme bem à imagem da sua realizadora, Catherine Breillat, controverso, visceral, excessivo, uma obra onde as fronteiras entre o pornográfico e a expressão do cinema como arte transgressora estão sempre a ser postas em causa (foi essa polémica que lhe valeu aliás no ano da sua estreia alguns problemas com a distribuição em França) e cujas imagens de sexo explícito (Rocco Sifredi, acima na imagem, e um dos mais afamados actores da indústria pornográfica, chega mesmo a ter um papel seu onde mostra parte dos seus "dotes") criaram um natural "hype" à volta.

Mas a controvérsia aqui é mais pretexto, também, ou sobretudo, para expor uma história sobre o desejo feminino que prefere apontar à visão daquilo que constitui a intimidade de uma mulher na sua busca de várias formas de prazer e na consumação dos seus desejos, tanto como na construção e descontrução de uma identidade feminina face a esse percurso. Mas o importante talvez seja dizer isto: o escândalo, a existir, nunca está do lado de Breillat e da sua personagem - e é por isso que Romance consegue escapar ao puro sensacionalismo que muitos quiseram ver nele -; a estar, ele estará sempre do lado do público que nesse campo só pode ser juíz e vítima dos seus próprios preconceitos (escolha que, apesar de tudo, a realizadora francesa tem o mérito de deixar do nosso lado).

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

15 minutos de Avatar


E aí estão as primeiras reacções a uma amostra de 15 minutos de Avatar que James Cameron decidiu apresentar como aperitivo para a estreia do filme (que só chega em Dezembro, pouco antes do Natal): ao que parece as imagens 3D são mesmo monumentais e a recriação de todo um novo planeta (a par das paisagens, da fauna e dos seres que o povoam) traz, segundo artigo do Guardian, uma exuberância visual nunca vista. Consta que há ainda por ali uma certa agenda ambiental na forma como a história aborda a exploração deste novo mundo extra-terrestre através de uma missão que busca os seus recursos naturais. Mas uma das privilegiadas espectadoras lá vai alertando: eles não parecem estar a promover a "história", eles parecem estar a promover o "3D".

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Michael Mann: o último dos moicanos


Dos três filmes onde Michael Mann abraçou as câmaras digitais, talvez Inimigos Públicos seja aquele que menos nos conseguiu entusiasmar, mas há um aspecto que se mantém no percurso deste realizador de quem não temos dúvidas em considerar como um dos grandes cineastas da actualidade: a sua dimensão clássica, o seu olhar perante uma personagem e a narrativa em que se integra e o peso que cada imagem sua ganha à medida que a história prossegue. Isso acontece em Inimigos Públicos, tal como acontecia nos seus dois mais recentes filmes: Colateral (2004) e Miami Vice (2006). E à semelhança de Heat - Cidade Sob Pressão (1995), O Último dos Moicanos (1992) ou até mesmo O Informador (1999), Mann volta a captar aqui, e com peculiar fascínio e atenção, a figura do acossado, não como um puro retrato romântico do "marginal", antes como último representante de uma velha linhagem, um animal em extinção, símbolo do fim de uma era e de uma tradição. À sua maneira, Mann filma também um pouco aquilo que ele é: um dos derradeiros intérpretes do classicismo no cinema.

The most expected trailer of the year!



E aí está, muito provavelmente, o mais aguardado trailer do ano, o filme que tem sido por muitos anunciado como uma das maiores revoluções tecnológicas da Sétima Arte - não por reincidir apenas na técnica do 3D, mas por trazer consigo a promessa de elevar o 3D a uma dimensão nunca antes vista até aqui -, a mais recente megalomania de James Cameron (cineasta que sempre se soube superar nesse caderno de encargos), e a qual, segundo rezam as vozes dos seus colaboradores mais próximos, tem tudo para originar entre nós um novo conceito de cinema. Vamos ser sinceros: desconfiamos muito desta ideia de que é do 3D que depende a salvação do cinema e, mais do que isso, que ao cinema se tenha de sobrepor sempre uma ideia de tecnologia. Mas Avatar não deixa por isso de ter uma carga enigmática e simbólica interessante, um certo sentimento de transformação e metamorfose que não víamos há muito acontecer no campo da produção cinematográfica, e até uma certa imagem de esperança onde as imensas possibilidades da imaginação e da fantasia voltam a ter um espaço a ocupar no nosso imaginário colectivo. O filme estreia a 18 de Dezembro.

terça-feira, 18 de agosto de 2009

They're coming! They're coming!



E aqui está um exemplo daquilo que perdemos em humor e em trailers. De alguém que sabia o que era o humor e o que era o cinema. Isto a propósito de Sir Alfred Hitchcock e do post abaixo que chegou com 5 dias de atraso. Já agora, este é o nosso filme preferido do "mestre". "They're coming! They're coming!"

110 anos e 5 dias


Sabemos que estamos um pouco atrasados, mas não queríamos deixar passar a data em claro (e o "mestre" não nos há-de levar a mal por isso): Alfred Hitchcock faria hoje 110 anos e 5 dias (nasceu a 13 de Agosto de 1899), mais coisa menos coisa. Como as crianças que adoram ser assustadas, sem preconceito de experimentar os deliciosos "horrores" de um qualquer susto e com aquela absoluta sabedoria que as leva a sentir o medo como uma emoção da vida, o cineasta britânico levava-nos a viver o "suspense" das suas intrigas como um meio para sublinhar o grande poder de ilusão do cinema. É dos gestos mais "vivos" que nos deixou, é dos melhores sentimentos a que nos apetece voltar. Nesta vida gostamos de ser assustados, é um facto. E ele fazia-o melhor do que ninguém.

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Há um filme adulto num filme de animação


Já sabíamos, e desde há muito, que a Pixar era uma das grandes herdeiras da tradição mais clássica e popular do cinema; não apenas um estúdio de animação, mas um estúdio que ao longo dos anos e desde Toy Story foi capaz de evocar a virtude mais primordial da Sétima Arte em colocar uma história, uma narrativa e as suas personagens ao serviço das grandes emoções humanas, ao serviço tanto do entretenimento e da componente mais popular do cinema, mas também como motor de uma reflexão mais profunda sobre a vida e a existência do indivíduo. Sempre que olhamos para ali vemos um pedaço da História do Cinema, aliás, um dos "melhores pedaços" da História do Cinema, onde tanto cabe o legado de figuras tão intransponíveis como Chaplin e Keaton, entre muitos outros, como as grandes questões que interessa colocar no nosso tempo (ou em qualquer tempo). Podemos arriscar dizer que não há um filme mau da Pixar, e sobretudo temos em muita boa conta obras como Os Incríveis ou Wall-E que insistimos em considerar autênticas obras-primas.

Agora que temos Up -Altamente!, a mais recente "maravilha" saída das cabeças do estúdio que revolucionou o panorama da animação cinematográfica desde há uma década, descobrimos ainda ali um dos momentos mais perfeitos da produção contemporânea, perfeitamente simbólico das carências do nosso tempo e ao mesmo tempo o epítome das qualidades criativas e artísticas dos senhores da Pixar. Os minutos iniciais de Up - Altamente! (não os contamos, mas serão cerca de dez a quinze minutos) são das melhores coisinhas que já observamos numa sala de cinema: um filme adulto dentro de um filme de animação, um filme adulto numa sala de cinema onde cada vez mais se impedem de entrar filmes adultos. Naquela história de uma vida, naquele retrato de um homem nascido numa época e esmagado por outra, naquela viagem de sonhos e frustrações, de conquistas e perdas, de partilhas e ausências, está um dos melhores momentos do ano.

Pura síntese narrativa e um equilíbrio formal e emocional que bate aos pontos (e de caras) 99 por cento de toda a oferta que a distribuição insiste em impor-nos recorrentemente. Up- Altamente! é isto e muito mais: um cruzamento entre o Gran Torino de Eastwood (como muito bem refere o crítico Luís Miguel Oliveira) e o Indiana Jones de Spielberg, uma aventura lírica e filosófica que incui como cenário o encontro e desencontro entre gerações, uma revitalização dos valores fundamentais do cinema. Está ali cinema, portanto. E isso fazia-nos muita falta.

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Apocalipse confirmado (são só mais 5 biliões de anos)


Não, a culpa não é só do aquecimento global: o Apocalipse tem mesmo data marcada (isto se não dermos cabo do planeta antes) e o culpado é o sol que, segundo, a revista New Scientist tem um pequeno probleminha de temperatura. É certo que ainda faltam cerca de 5 biliões de anos para a coisa começar a aquecer (literalmente), mas é boa altura para começarmos a pensar noutro cantinho do Sistema Solar para viver, até porque mais cedo do que se imagina, e aqui o prazo reduz-se para pouco mais de 1 bilião de anos, vamos ter temperaturas médias à volta dos 50 graus centígrados (é como se de repente isto tudo virasse o deserto Sahara) com os oceanos a chegarem ao ponto de evaporação. Também é boa matéria para um guião cinematográfico e não deixa de ter alguns finais alternativos: alguns cientistas vão afirmando que a solução pode passar por emigrarmos para Vénus ou Marte, ou então alterar a órbita terrestre em 30 por cento.

Apocalipse agora


Como nós tínhamos reparado (e isto não tem só a ver com o facto de andarmos a ler Cormac McCharthy, embora ajude), também o Guardian já percebeu que as mais recentes visões apocalípticas que o cinema nos tem oferecido (e ainda vai oferecer, basta relembrar que 2012 de Roland Emmerich está a caminho) não são apenas produções tontas e desejosas de dar cabo do mundo com invasões exterrestres, catástrofes naturais, colisões de cometas ou afins, e encher o bolso com isso (mas também não metemos a mão no fogo). Estas podem ser (e normalmente são) representações da ansiedade que vivemos nos tempos de hoje: tempos de mudança, como sabemos (a globalização, a crise económica, a lista do costume). Sublinhamos algumas ideias:

"Suddenly the Apocalypse is in fashion."

"Most of us seem to seek mental relief by drowning ourselves in a sea of doom and gloom for a couple of hours. The experience can be some sort of catharsis."

"(...), experts say the trend towards apocalyptic thought does not only reflect anxiety over a difficult period of history but, just as important, changing times. Indeed it is often the concept of change as much as the concept of destruction that triggers popular interest in apocalyptic themes, (...)."

Quanto ao resto do artigo, by Paul Harris, podem dar uma vista de olhos aqui.

domingo, 9 de agosto de 2009

I belong where I am


"Well, I always feel I belong where I am."

James Stewart em O Homem que Veio de Longe (The Man From Laramie, 1955) de Anthony Mann

sábado, 8 de agosto de 2009

Raúl Solnado (1929 - 2009)


Raúl Solnado morreu hoje, aos 79 anos, no Hospital de Santa Maria de Lisboa. Era um homem de olhos expressivos e gestos largos, um homem que nos fazia rir, um homem de quem devemos ter por aí umas cassetes de humor que nos animavam a infância e de quem adorávamos aquele maravilhoso sketch d'AGuerra de 1918. Para a eternidade ficam as gargalhadas que eles nos deixou por dentro.

(na imagem uma cena de Dom Roberto, filme de Ernesto de Sousa, por muitos apontado como a obra percursora do Cinema Novo Português que contou nos papéis principais com Raúl Solnado e Glicínia Qaurtin)

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

Fucking!



De John Hughes recordamos com especial carinho uma comédia onde contracenavam dois dos grandes actores norte-americanos da sua geração: Steve Martin e John Candy (este último, infelizmente, já desaparecido entre nós de forma muito precoce). O filme chamava-se Antes Só que Mal Acompanhado (no original Planes, Trains & Automobiles) e não tinha nada a ver com adolescência; era sim o périplo desgraçado de um executivo (Martin) que tenta chegar a casa a tempo do Dia de Acção de Graças, mas dá sempre de caras com obstáculos e um irritante vendedor (Candy) que durante toda a viagem lhe faz os nervos em franja. À superfície é uma comédia tonta e destrancada, mas há uma dimensão de absurdo e non-sense digna dos irmãos Marx e um lado muito Capra ligado ao espírito natalício em que a acção decorre (talvez seja, se é que podemos ir por aí, o It's a Wonderful Life de John Hughes).

Tem sequências absolutamente hilariantes e o final, de que nos lembramos bem, é bastante comovente: num verdadeiro plano de aceitação do "outro", Martin convida Candy a passar as férias em sua casa e junto à família, depois de todas as tropelias vividas por sua culpa (uma sequência, diríamos, construída no mais puro estilo dickensiano e depois de se descobrir que Candy não passa afinal de um homem solitário, sem família e sem lugar onde passar o Dia de Acção de Graças). O filme é considerado por alguns críticos a comédia mais adulta de Hughes e depois disso já foi votada como uma das dez melhores no seu género. Numa das suas cenas mais famosas e recordadas (a qual podemos ver acima), Martin diz 18 vezes a palavras "fucking" frente à funcionária da empresa de aluguer de carros após o serviço ter falhado.

Scott, Di Caprio, Huxley & Nichols


E cá estamos de volta a Ridley Scott: o realizador britânico, cujo nome foi indicado para regressar a mais um novo episódio da série Aliens (desta vez uma prequela do filme original que inaugurou a saga e que promete desvendar tudo o que aconteceu à nave que a equipa de Ripley descobria no início desse clássico do cinema), torna a ser apontado como líder de um projecto na área da ficção científica ao lado de Leonardo Di Caprio. Trata-se da adaptação de Admirável Mundo Novo, a mítica distopia literária escrita por Aldous Huxley - o que é curioso: Scott que não entrava pelo universo da ficção científica desde Blade Runner: Perigo Eminente, obra de 1982 (foi um fracasso de bilheteira, talvez isso explique o "trauma"), investe agora em duas produções do "ramo" que não deixam de desenhar óbvias tangentes às obras predecessoras (se por um lado Alien convoca mais uma vez o filme que o revelou ao mundo, por outro Admirável Mundo Novo é tal como Blade Runner um objecto que retrata uma sociedade futurista decadente). Na escrita do argumento temos Andrew Nichols, um "expert" na matéria das distopias e das sociedades vigilantes; basta relembrar que foi o autor do argumento de The Truman Show: A Vida em Directo e o realizador de Gattaca.

Scott, Di Caprio, Huxley e Nichols é uma fórmula que promete.

John Hughes (1950 - 2009)



John Hughes morreu ontem, dia 6 de Agosto, aos 59 anos. Desaparece assim, ainda com uma "jovem idade", o cineasta que filmou com peculiar fascínio a "jovem idade" da adolescência: filmes como O Clube ou O Rei dos Gazeteiros, provavelmente os mais famosos e acarinhados entre nós, ficam para a história como retratos pertinentes da "teen culture" dos anos 1980 - obras que em muitos deixaram a sua aura de culto e uma marca profunda a rimar com as "dores de crescimento" vivida pelos jovens dessa época. Não foi por acaso que chegou a ser alcunhado como "o filósofo da adolescência": Hughes não filmava a juventude apenas para obter os seus efeitos mais lúdicos ou imediatos, fornecendo-lhe também uma profunda marca existencial radicada nos processos de transformação da passagem à vida adulta e sobre o abandono da inocência. O seu sucesso junto do público, sobretudo jovens (embora não só), explica-se por esta capacidade de o realizador conseguir mais do que uma visão contemporânea dos dilemas e das angústias juvenis, exprimir ainda uma forte herança clássica no tratamento de tais temas. Talvez haja quem o veja, apesar de tudo, como um cineasta menor - mas quem nos dera que todos os cineastas menores fossem como ele.

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

A prequela de Alien volta a Scott


Ridley Scott vai afinal realizar a anunciada prequela da saga Aliens, contrariando a ideia que o colocava apenas como produtor do projecto que inicialmente tinha a cadeira de realizador entregue a um novato da pulicidade televisiva: Carl Rinsch (parece que a 20th Century Fox não esteve para arriscar com um estreante e exigiu a Scott que tomasse definitivamente as rédeas). Na nossa opinião, não podia estar em melhor mãos, pela razão simples de que continuamos a considerar o primeiro Alien, entre nós sub-intitulado O 8.º Passageiro, como o melhor de todos.

Primeiro, porque foi aquele que melhor soube maximizar o potencial "suspensivo" da imagem do monstro alienígena (se bem se lembram, o Alien apenas se mostrava em toda a sua imponência bem no final, na mítica cena em que se debate com a única sobrevivente interpretada por Sigourney Weaver) - lembramo-nos de Alien: O 8.º Passageiro menos como um filme de ficção científica, mas mais como um thriller noir de terror psicológico (e "noir" talvez seja a palavra certa para resumir a memória que deles temos: um filme a preto e branco, sobretudo, onde as sombras e o suspense definem o verdadeiro jogo do rato e do gato em que se transforma a história daquela nave que dá de caras com um estranho e fatal ser extra-terrestre).

Segundo, porque Ridley Scott já deu provas de que o terreno da ficção científica é matéria que manuseia com destreza e mestria: a sua última aventura neste campo continua a ser o memorável Blade Runner: Perigo Eminente. O novo episódio recua precisamente até aos acontecimentos decorridos antes do filme inaugural e conta na escrita do argumento com o nome de Jon Spaihts, considerado o argumentista do momento no domínio da ficção científica. Só não queremos que se repitam os casos abjectos de Jean-Pierre Jeunet ou as abusivas explorações comerciais que constituíram os Aliens Vs. Predator.

Para nós, o Alien continua a ser essa espécie de "femme fatale" alienígena, misteriosa e negra, venenosa e mortal, esguia e curvilínea, que só se mostra no instante mais extremo do fantasma que invoca: a Morte.

Heath Ledger's Last Video



É um objecto particularmente curioso e evocativo: mais de um ano após a morte do actor Heath Ledger descobrimos um projecto de animação realizado pelo actor para o tema King Rat da banda americana Modest Mouse. O trabalho serve, no fundo, de vídeoclip para a canção e retrata de forma abertamente crítica a pesca ilegal de baleias na costa australiana, invertendo neste caso os papéis - os humanos tornam-se os perseguidos e as baleias os perseguidores - com resultados no mínimo "explosivos". Na altura da morte de Ledger, o trabalho ainda não estava terminado, tendo sido finalizado mais tarde pelos seus colegas do colectivo The Masses com quem iniciara a produção. Quem comprar a canção através do iTunes estará ainda a contribuir para a Sea Shepherd Conservation Society.

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Post #100 e o Verão Quente nas Caldas



Primeiro de tudo: este é o nosso post n.º 100, facto que merece uma pequena comemoração (já não estamos no ciclo básico onde desenhávamos o número da lição a giz no quadro, mas se tivéssemos uma ardósia era o que faríamos) e uma nota sincera de auto-satisfação (é preciso lembrar que um dos grandes problemas dos blogues passa por essa coisa vital que chamamos de manutenção, razão porque estamos muito contentes por ainda andarmos por aqui).

Em segundo lugar: estamos a entrar no nosso "Verão Quente" das Caldas que, por outras palavras, é o mesmo que dizer que hoje se inicia no CCC o ciclo de cinema Sexo: O Último Tabu, programa que durante todo o mês de Agosto propõe alguns dos títulos que nos últimos anos melhor analisaram a visão do sexo no grande ecrã. Não se trata de "pornografia", embora haja sexo explícito, e não se trata de "erotização", embora haja corpos despidos, aqui o que se pretende mostrar é o que certos autores consagrados fizeram no cinema (ou no "seu" cinema) pegando num dos últimos tabus a ser quebrado no mundo da Sétima Arte.

Intimidade de Patrice Chéreau pode bem ser hoje, pelas 21h 30, no Pequeno Auditório, o melhor exemplo do risco tomado por um realizador de créditos firmados num campo normalmente minado tanto por preconceitos morais e éticos como pelo puro exibicionismo físico e artístico. Trazer o sexo para a tela é entrar num território onde os limites entre o brejeiro e o visionário podem ser muito ténues. Mas Chéreau, conseguiu manter as distâncias e fazer de Intimidade um filme com o exacto peso e a exacta medida que o título simboliza, sem oferecer um espectáculo gratuito e primário da importância das relações sexuais e a sua influência nas vidas mundanas dos seres humanos que somos.

É uma obra de forte "intimismo" sobre dois amantes que desconhecem a dimensão social que cada um deles tem fora do apartamento onde se encontram (à socapa para satisfazerem os seus desejos sexuais) e que olha à lupa essa relação como um percurso de sede de afectos e de verdadeira descoberta (íamos dizer "penetração") no universo emocional e sentimental das suas personagens. Além de ter vencido o Urso de Ouro do Festival de Cinema de Berlim em 2001, este foi ainda o primeiro filme de Patrice Chéreau em inglês.

domingo, 2 de agosto de 2009

As melhores referências


Fomos ver ontem A Idade do Gelo 3: Despertar dos Dinossauros: não é só mais um óptimo episódio desta saga de animação, mas um universo juvenil de citações e referências literárias (do Moby Dick de Melville à Viagem ao Centro da Terra de Júlio Verne, passando pelo Mundo Perdido de Conan Doyle, mais umas pitadinhas de Chaplin, Buster Keaton e Parque Jurássico de Spielberg) - assim de repente foi o que anotamos.

sexta-feira, 31 de julho de 2009

Um quadro do Ford


E um "quadro" do Ford para terminar bem o dia (e o mês).

Bruce Lee x 3


Zhang Yimou, outra vez: o realizador chinês vai realizar um "biopic" sobre o mítico actor de artes marciais Bruce Lee. Ou melhor, são três filmes que contam a história deste ícone do cinema desde o nascimento até à sua morte em 1973. A primeira estreia está anunciada para Setembro do ano que vem e servirá para assinalar a efeméride que celebra os 70 anos do seu nascimento. Não há certezas quanto ao nome do actor que interpretará o papel de Bruce Lee, mas o pai será interpretado por Tony Leung Kar-Fai (o amante de O Amante na adaptação que Jean-Jacques Annaud fez do romance de Marguerite Duras em 1982).

Espólio de Leitão de Barros e Cottinelli Telmo


São boas notícias para parte do legado do cinema português (embora não só): a EPHEMERA - Biblioteca e Arquivo de José Pacheco Pereira recebeu durante esta semana o espólio da família Cottinelli Telmo e da família Leitão de Barros (a acompanhar estava ainda o espólio do Coronel Marques Leitão), que reúne segundo o blogue do historiador português um conjunto valioso de livros, revistas, periódicos e outros documentos, material que ocupava cerca de cinquenta caixas e seis grandes estantes.

Pode-se ler ainda ali que se trata "de um conjunto de espólios oriundos de famílias com um papel fundamental na história cultural do Portugal do século XX, na literatura, no cinema, na 'educação popular', na arquitectura e em outras áreas', assim como podemos estar descansados de que os 'espólios serão organizados e inventariados e progressivamente as suas peças mais interessantes (...) publicadas'." Mas o que nos interessa também destacar aqui é o valor da preservação que nos assegura a partir de agora de que pelo menos alguns documentos de dois dos maiores cineastas portugueses de sempre estarão a salvo da degradação e do esquecimento, adequadamente arquivados e protegidos para posterior consulta e exposição.

Por outro lado, não nos choca nada que esse trabalho acabe a ser feito por uma biblioteca privada (a maior do país, segundo rezam as crónicas) e sem que à primeira vista tenha havido interesse ou intervenção de qualquer instituição pública ou do próprio Estado português - de facto, não sabemos se esse pedido alguma vez foi feito por parte dos familiares junto do poder público e acreditamos que os familiares viram nesta solução a melhor saída para tão importantes documentos. O trabalho, aliás, de Pacheco Pereira neste campo tem sido irrepreensível e dá-nos (provavelmente melhor do que ninguém) a garantia que, desta forma, se protege um fundamental pedaço da vida e do trabalho de ambos os realizadores, responsáveis, também eles, por captarem e preservarem os seus pedaços de identidade nacional em obras como Nazaré, Praia de Pescadores, Maria do Mar, A Severa, As Pupilas do Senhor Reitor, Ala-Arriba (Leitão de Barros) ou A Canção de Lisboa (Cottinelli Telmo).

(na imagem uma foto de Ala-Arriba)