segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Pare, Escute, Olhe de Jorge Pelicano em Alcobaça


E assim termina a extensão doclisboa 2009 no Cine-Teatro de Alcobaça com a obra de todos os prémios (Melhor Longa-Metragem, Melhor Montagem e Prémio IPJ Escolas) e de todas as controvérsias (cinema documental ou reportagem televisiva?, questionava-se): Pare, Escute, Olhe de Jorge Pelicano encerra hoje, às 21h 30, mais uma passagem do certame por Alcobaça, lançando um olhar profundo e comovente sobre o abandono da linha do Tua e a desertificação do interior do país.

sábado, 21 de novembro de 2009

Luanda, A Fábrica da Música



Para terminar, teremos hoje à noite, pelas 21h 30 (filme que repete amanhã, pelas 19h), mais um documentário da dupla Kiluanje Liberdade e Inês Gonçalves que depois de filmes como Oxalá Cresçam Pitangas ou Mãe Ju voltam a olhar para Luanda e para o território angolano, através das suas vibrantes formas de expressão musical - onde o kuduro assume um especialíssimo destaque -, com um amplo fascínio e uma sentida atenção, a sublinhar sem contemplações a criatividade evidenciada hoje em dia pelos jovens angolanos. Basta dar uma olhada ao trailer para perceber do que falamos. Imperdível!

Sessão de Curtas Premiadas


Ainda hoje temos uma Sessão de Curtas Premiadas, pelas 19h, onde teremos a oportunidade de observar os filmes Passando à de Zé Marôvas de Aurora Ribeiro, vencedor do Prémio de Melhor Curta-Metragem Nacional, e Entrevista com Almiro Vilar Costa de Sérgio Costa, obra que recebeu uma Menção Especial: esta sessão repetirá na próxima segunda-feira, dia 23, também pelas 19h.

Lisboa Domiciliária de Marta Pessoa



E ao segundo dia da extensão doclisboa 2009 em Alcobaça entra em cena Lisboa Domiciliária, uma obra de Marta Pessoa, realizadora que estará presente não na sessão de hoje, pelas 17h, mas amanhã à noite, às 21h 30, para debate com o público. Um filme que documenta o isolamento a que os idosos de Lisboa muitas vezes se vêm sujeitos nas suas próprias casas e bem no meio da capital do país; um mundo dentro do mundo onde os corpos unem-se às casas e criam uma nova arquitectura.

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Ainda hoje: Os Esquecidos de Pedro Neves



Também hoje, no programa do dia, a extensão doclisboa 2009 no Cine-Teatro de Alcobaça, mostra-nos Os Esquecidos do realizador leiriense Pedro Neves, pelas 19h, filme que terá uma nova exibição no próximo domingo, pelas 17h. Uma obra que nos mostra o lado escondido da pobreza no Grande Porto e o drama vivido por aqueles que tropeçaram no entulho e na desilusão, na privação, na perda, na angústia.

Confirmem na vossa agenda: é hoje!


Começa hoje a extensão doclisboa 2009 no Cine-Teatro de Alcobaça, um evento que dura até à próxima segunda, dia 23 de Novembro, com o filme Escrever, Escrever, Viver de Solveig Nordlund, que tal como todas as obras presentes terá direito a duas sessões, pelas 14h 30 e 21h 30. Trata-se de um retrato documental do escritor António Lobo Antunes que passa em revista a sua vida e obra: a infância, a psiquiatria, a guerra colonial, o 25 de Abril, os livros, o cancro que em 2006 lhe foi diagnosticado e as marcas que deixou. Apareçam!

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Marta Pessoa no Cine-Teatro de Alcobaça


Mais uma presença confirmada: Marta Pessoa, realizadora de Lisboa Domiciliária, filme que será exibido na extensão doclisboa 2009 no Cine-Teatro de Alcobaça, estará presente e disponível para uma conversa com o público no final da sessão do próximo domingo, dia 22 de Novembro, pelas 21h 30. A cineasta nasceu em Lisboa, em 1974 e concluiu o curso de Cinema da ESTC, tendo-se especializado nas áreas de Realização e Imagem. Desde então tem trabalhado em diversas áreas da produção cinematográfica e teatral e a sua filmografia recente inclui títulos como a ficção Manual do Sentido Doméstico (2007) ou o documentário Sobre Azul (2005).

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Jorge Pelicano no Cine-Teatro de Alcobaça


Confirmadíssimo: a derradeira sessão da extensão doclisboa 2009 no Cine-Teatro de Alcobaça que decorre no próximo dia 23 de Novembro, segunda-feira, pelas 21h 30, e exibirá o grande vencedor da edição deste ano do festival na Competição Nacional (foram três prémios de uma assentada: Melhor Longa Metragem, Melhor Montagem e Prémio IPJ Escolas): Pare, Escute, Olhe de Jorge Pelicano, contará com a presença do realizador na sessão para conversa com o público. Uma óptima oportunidade para colocar perguntas directamente ao jovem cineasta, discutir o panorama do documentário português, questionar sobre o que o levou a subir até à linha do Tua e filmar aquela região, e quem sabe aflorar ainda a grande controvérsia que o filme gerou no certame e no meio cinematográfico depois de ser premiado - onde a dúvida era: será que Pare, Escute, Olhe é cinema documental ou reportagem de televisão? Mas estejam atentos, esperam-se nos próximos dias mais presenças e confirmações de realizadores para a realização de debates.

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Folheto Extensão doclisboa 2009 em Alcobaça



No mesmo dia em que vai para a rua, aqui está também o folheto com toda a programação e informação disponível da extensão doclisboa 2009 no Cine-Teatro de Alcobaça. Folheiem, façam as vossas escolhas e apareçam.

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Alteração do Filme de Abertura doclisboa 2009



Atenção, atenção: por razões alheias à organização da extensão doclisboa 2009 no Cine-Teatro de Alcobaça, o filme de abertura inicialmente previsto para o dia 20 de Novembro foi retirado e substituído. Nesse sentido, o documentário Com que Voz, realizado por Nicholas Oulman, saiu do programa e em seu lugar será exibida a obra Escrever, Escrever, Viver de Solveig Nordlund, um retrato sobre a vida e a carreira do escritor António Lobo Antunes. Pelo facto, deixamos as nossas mais sinceras desculpas. Não deixem de consultar todo o programa actualizado, com sinopses, fichas técnicas e trailers aqui.

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Programa extensão doclisboa 2009 em Alcobaça



Já está definido o programa da extensão doclisboa 2009 no Cine-Teatro de Alcobaça. No total são 7 filmes, 12 sessões, 5 longas e duas curtas, durante 4 dias, de sexta a segunda, entre os próximos dias 20 e 23 de Novembro. Cada uma das obras presentes tem duas sessões à escolha (ou seja, quem falhar da primeira vez tem sempre uma segunda oportunidade, deixa de ter desculpa) e em cena estarão 4 obras premiadas, com destaque para Com que Voz de Nicholas Oulman (na sessão de abertura) e Pare, Escute, Olhe de Jorge Pelicano (na sessão de encerramento). Estão a convidados a folhear o folheto do programa aqui.

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Fotografias de Rodagem do Cinema Português


Aí está uma viagem interessante e bastante pertinente ao mundo dos bastidores do cinema português: a Fnac Colombo tem patente até ao próximo dia 27 de Novembro uma exposição intitulada Fotografias de Rodagem do Cinema Português composta por material pertencente ao Arquivo Fotográfico da Cinemateca Portuguesa - Museu do Cinema. Trata-se de uma série de fotografias de rodagem do cinema português, feitas entre os anos 1920 e os anos 1970, focalizada sobretudo em dois períodos: o período clássico do cinema português, nos anos 1930 e 1940, e o Cinema Novo, nos anos 1960. Se forem à Zara ou atrás do Bolaño também pode ser interessante passarem por lá.

Les Liaisons Dangereuses de Choderlos de Laclos


Durante um destes fins-de-semana fizemos um exercício interessante: ver Valmont e Ligações Perigosas, as duas adaptações (recentes) mais famosas da obra literária de Choderlos de Laclos ao cinema (e sim, confessamos, nunca tínhamos visto ambos filmes, tal como nunca dissemos que éramos o "cinéfilo perfeito"). Pareceu-nos muito evidente que o filme de Milos Forman (Valmont) é muito superior ao de Stephen Frears (Ligações Perigosas); uma constatação que não pareceu tão óbvia à crítica na altura. Ambos os filmes estrearam muito perto um do outro, julgo que primeiro Ligações Perigosas e só depois Valmont, o que não ajudou no segundo caso - Valmont é normalmente esquecido pela memória do grande público que acabou ao longo do tempo por o colocar numa posição abaixo do seu predecessor (talvez pelo elenco cheio de estrelas da altura, tais como John Malkovich, Glenn Close ou Michelle Pfeiffer, que detinha claramente um maior estatuto em comparação a Colin Firth, Annette Benning ou Meg Tilly - hoje talvez fosse diferente - a par ainda de toda a publicidade que obteve graças à cerimónia de Óscares onde foi nomeado para 7 estatuetas, das quais conquistaria 3).


Mas Valmont é melhor em tudo a Ligações Perigosas; as personagens mais credíveis e convincentes, um argumento mais coerente e equilibrado, uma narrativa mais estruturada, tensa e atraente. Valmont tem mais nervo e ao mesmo tempo maior subtileza na abordagem ao clássico texto literário de Laclos (o que lhe dá uma graça e uma leveza digna da superficialidade da época), cria mais contexto (com mais e melhor informação no desenvolvimento da acção), o que nos ajuda a compreender melhor a complexidade social e psicológica daquelas personagens e a densidade de toda a trama - intrincadíssima de jogos de sedução e artimanhas sexuais, insuflada pelas estratégias de conveniência e pela hipocrisia dos tempos, retrato agudo de uma sociedade corrompida até ao tutano pela vaidade pessoal, pela manutenção da classe social, pelo puro materialismo.


Já Ligações Perigosas tem bonecos vazios de humanidade (e actores demasiado conscientes do seu desempenho: o que torna o filme uma passerelle do "cast do momento" - acima de tudo é um filme vítima do seu casting, e aí compreende-se o seu sucesso junto da Academia de Hollywood), um guião que por vezes não parece encaixar e insiste em deixar imensas pontas soltas, além de perosnagens negligenciadas como é o exemplo de Cecília de Volanges (Uma Thurman) e do Cavaleiro de Dancenny (Keanu Reevers), figuras a quem são dadas um maior protagonismo e interferência em Valmont (ali interpretadas por Fairuza Balk e um surpreendente Henry Thomas, o menino de E.T. - O Extraterrestre); afinal de contas são eles os principais instrumentos das secretas perversidades do Conde de Valmont (Colin Firth) e Madame de Merteuil (Annette Benning). Onde há carne e alma em Valmont (apesar de tudo aquelas personagens movem-se por uma necessidade imperiosa de amor), há artificialismo e tiques de poseur em Ligações Perigosas.


Em sites como o allmovie.com, Valmont recebe 2 estrelas (em cinco possíveis), enquanto Ligações Perigosas leva 4,5 (o que é uma verdadeira injustiça, parece-nos que deveria ser ao contrário). Depois, dentro dos critérios válidos a que nos permitimos na apreciação de uma obra de cinema, Valmont teve pelo menos esta qualidade: manter-nos despertos até ao fim e bem depois da meia-noite presos ao destino das suas personagens (confessamos outra vez que nunca tínhamos lido o livro, o que já não é o caso hoje, pela razão simples que também nunca dissemos que éramos o "leitor perfeito", apesar de tudo fazermos por isso), facto inverso a Ligações Perigosas que nem uma tardinha ricamente preenchida de sol nos impediu de baixar a pálpebra de tédio e aborrecimento - pois se todos os outros argumentos não ajudarem a explicar porque se ama mais um filme do que outro, pelo menos cremos que estes servirão.

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Estoril Film Festival


E talvez seja desta que Paulo Branco consiga colocar definitivamente o Estoril Film Festival no panorama dos grandes eventos nacionais ligados ao cinema (isto depois de alguns falsos arranques e de uma certa errância programática nas primeiras edições): o certame arranca hoje com a inauguração da exposição Portraits "In - Eyes" de Juliette Binoche (que conta com a presença da actriz) e a projecção, em regime de antestreia nacional, do mais recente filme de Wes Anderson Fantastic Mr. Fox.

Portraits "In - Eyes" poderá ser vista no Centro de Congressos do Estoril, mas Juliette Binoche estará ainda amanhã às 18 horas no mesmo espaço para autografar o livro Portraits “In-Eyes” sobre a sua exposição e, às 19h30, fazer a apresentação do documentário Juliette Binoche Dans les Yeux, realizado pela sua irmã Marion Stalens, que também estará presente.

Ruas da Amargura de Rui Simões



É uma ocasião feliz e rara para o documentário português pouco habituado a assistir a estreias suas no cenário da distribuição nacional: Ruas da Amargura, obra do veterano e consagrado documentarista português Rui Simões (autor de filmes-charneira para a compreensão da nossa identidade histórica e social como Deus, Pátria, Autoridade ou Bom Povo Português, entre outros), estreou hoje em várias salas e pontos do país, tais como Lisboa, Porto, Coimbra e Almada. Um caso verdadeiramente excepcional quando sabemos que o documentário português dificilmente consegue chegar às salas de cinema do país e muito menos se permite a uma distribuição tão ampla como a que neste exemplo dá para perceber se pretende atingir (pois se já é raro conseguir espaço de exibição em cidades como Lisboa ou Porto, pior se torna quando se procura expandir para fora desse âmbito numa mesma data).

O filme que esteve presente o ano passado na Competição Nacional do doclisboa 2008 não só chega num contexto e numa época totalmente pertinente ao fenómeno que aborda (18% de pobreza em Portugal é razão suficiente para que o cinema sirva de campo de reflexão sobre um dos dramas do país) como é ainda um retrato profundo e impressionante sobre a integração da pobreza na nossa sociedade, assim como uma viagem à face mais visível e terrena dessa realidade através de quotidiano e da vivência de diversas personagens. E há dois factos que urge redescobrir com Ruas da Amargura (e que só por si deveriam ser razões suficientes para pôr toda a gente a correr para a sala de cinema a comprar bilhete): a revelação, cada vez mais consciente e presente, da força e qualidade do documentarismo português, e o confronto com o panorama da pobreza, questão a que já não dá para fugir nem fingir que não se vê e com o qual nos cruzamos todos os dias. Não costumamos dizer isto de muitos filmes, mas este é mesmo um filme obrigatório.

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Workshop de Escrita Criativa para Guiões de Cinema em Leiria


Se a vossa cabeça anda a verter ideias e histórias a toda a hora sem saber o que hão-de fazer delas, esta é a iniciativa ideal para os ajudar: a escritora e realizadora Cláudia Clemente vai estar no próximo dia 14 de Novembro na livraria Arquivo em Leiria para dar um workshop de Escrita Criativa para Guiões de Cinema. São sete horas de recomendável exercício mental e escrito que podem limar o escritor de argumentos para cinema que há em si; e caso a coisa dê para o torto é certo que a Claúdia Clemente estará lá para os salvar (normalmente os argumentistas têm esta tendência: precisam de ser salvos deles próprios e dessa insegurança a que chamam "bloqueio criativo").

Bom, fica a dica entregue e fiquem ainda a saber que a formadora tem óptimo currículo: não se trata apenas do facto de ter estudado cinema em Barcelona ou de ter tirado o Curso de Realização Cinematográfica na Restart, ou para além disso ter ainda escrito um livro de contos (O Caderno Negro pela Tinta Permanente). Claúdia Clemente realizou, escreveu, produziu e montou curtas como A Mulher Morena, A Fábrica ou A Outra, mas foi em 2007 que conheceu um dos seus melhores momentos com essa bela curta documental que era & etc (sobre a editora independente com o mesmo nome), vencedora do Prémio de Melhor Curta-Metragem Nacional no doclisboa 2007.

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Os raccords de Jorge Pelicano


Gosto muito de como o Jorge Pelicano usa e abusa de todos aqueles raccords em Pare, Escute, Olhe. E de como isso satura e impregna o filme de uma dimensão política, activista, nervosa quase (e que eu não tenho dúvidas será sempre vista com muita polémica e controvérsia), de quem se põe ao lado daquelas gentes, de quem toma claramente partido (e estamos a falar da região directamente afectada pelo fecho da linha do Tua). Não é inovador, nada disso (e basta lembrar o que Kubrick fez em 2001: Odisseia no Espaço), mas tem algo de desesperado: um desespero muito consciente do efeito dessa técnica, mas ainda assim desespero. É do desespero que gosto.

Mas os raccords, que a determinado momento se parecem sobrepor e justapor, ou entrecruzando-se como num entroncamento se entrecruzariam diferentes linhas de comboio - já não só ao nível visual, mas numa dimensão igualmente simbólica e metafórica -, criam ainda uma série permanente de contrastes (o povo e os políticos, o interior e o litoral, as promessas do passado e a realidade do presente, a vida e a morte, Portugal e o estrangeiro). Ou mais até de contradições, de analogias, de equívocos, usadas praticamente no limite como "figuras de estilo": Pelicano não tem medo de colocar as coisas preto no branco e o que ele não se cansa de afirmar com isto é que existindo uma culpa do isolamento e do abandono daquelas pessoas, esta pertence inevitavelmente aos políticos que conforme os anos e as épocas se contradizem, se desmentem, se ridicularizam mesmo com as suas estratégias para a zona.

Nesse sentido, estamos perante um filme que não deixa de ser também "político", um filme que aponta o dedo sem medo aos verdadeiros responsáveis e que usa de alguma ironia, por vezes mórbida (a evocação da Morte é constante: a começar pelas impressionantes imagens no interior da carruagem virada e do desespero das vítimas que são como uma imagem do Purgatório, além das cruzes no cemitério), e de algum cinismo, como se o realizador pagasse aos decisores, no fundo, na mesma moeda. Os políticos não têm voz porque a sua voz é o que ficou dos seus gestos e das suas políticas para a região; abandono, puro abandono, e das palavras vãs que ficaram perdidas nos arquivos e no tempo. Aqui é a vez de dar voz a outros: aos habitantes, aos jovens desiludidos, aos velhos, aos latidos dos cães que os acompanham, aos "discos pedidos", ao silêncio de um mundo esquecido e deixado para trás. E que morre.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Pare, Escute, Olhe



Foi o grande vencedor da edição doclisboa 2009 na Competição Nacional de Longas-Metragens Portuguesas (revelando-se ainda um verdadeiro papão de prémios ao arrecadar igualmente no certame os prémios de Melhor Montagem e IPJ Escolas) e era o filme que já ontem muitos espectadores mostravam interesse em ver presente na extensão do festival em Leiria: Pare, Escute, Olhe de Jorge Pelicano é o filme escolhido para integrar a sessão de Filmes Premiados prevista para amanhã, quarta-feira, no Teatro Miguel Franco, pelas 18h 30. Uma obra que aborda o encerramento da famosa linha do Tua e procura retratar a forma como essa sentença amputou o rumo do desenvolvimento e ajudou acentuar mais ainda as assimetrias entre o litoral e o interior de Portugal. Uma viagem através de um Portugal esquecido, vítima de promessas quebradas e do esquecimento dos grandes decisores políticos.

Futebol de Causas em Leiria



Depois de perto de uma centena de pessoas terem assistido ontem à sessão de abertura da extensão doclisboa 2009 no Teatro José Lúcio da Silva de Leiria, a par de uma franca e saudável conversa no final da sessão entre o público e o realizador de Os Esquecidos, o leiriense Pedro Neves, hoje é a vez de repetirmos o feito com o jovem documentarista Ricardo Antunes Martins e o seu Futebol de Causas, filme presente na secção Footdoc (uma novidade durante este ano no festival). Uma obra que lança um olhar sobre o movimento estudantil e as crises académicas pelo ponto de vista dos jogadores da Associação Académica de Coimbra e nos elucida sobre a forma como estes contribuíram e se envolveram na luta contra o regime ditatorial vigente em Portugal.

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Debates extensão doclisboa 2009


Está confirmado: as primeiras duas sessões da extensão doclisboa 2009 no Teatro José Lúcio da Silva de Leiria, onde poderemos ver os filmes Os Esquecidos (dia 26, 21h 30) e Futebol de Causas (dia 27, 21h 30), vão contar com as presenças dos respectivos realizadores para debate com o público. Uma oportunidade única de discutir com os jovens cineastas portugueses Pedro Neves e Ricardo Antunes Martins (na foto) todas as questões levantadas pelos seus filmes e as implicações de fazer um documentário.

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Saramago e a Bíblia


Gosto de Saramago, o escritor, não gosto de Saramago, a figura pública, já de Saramago, o homem, nada posso dizer que nunca o conheci (tirando uma palavras rápidas e um autógrafo trocados em tempos numa Feira do Livro de Lisboa). As suas palavras em Penafiel sobre a Bíblia são redutoras, limitadas e preconceituosas, para não dizer imbecis (e para quem se diz ateu mostram um homem muito desconfortável sobre a relação dos homens com Deus e talvez mais desconfortável ainda com aquela que é a sua própria não-relação com Deus). Mas o que irrita mais nas recentes declarações de Saramago não é o facto de reduzir a Bíblia a um "manual de maus costumes", é não reconhecer que ali está um livro - cuja existência ele não pode pôr em causa e que só por sinal é o "livro" sobre o qual estão fundadas, para o bem ou para o mal, boa parte dos alicerces da nossa sociedade - e que um livro tem sempre imensas leituras possíveis. Logo ele que tantas vezes foi vítima na sua vida de "misinterpretations". Ora, basta ver que sem a Bíblia, Saramago nunca teria escrito Caim, tal como nunca teria escrito o Evangelho Segundo Jesus Cristo - e só isto torna indesmentível o peso histórico e a influência daquele texto. Depois, ver Deus como ele vê; "vingativo", "rancoroso", "má pessoa" e que "não é de fiar", é o mesmo que reduzir o Ensaio Sobre a Cegueira a uma simples história de gente degenerada e decadência. É por isso que não faz sentido agora vir Saramago negar à Bíblia a "liberdade de leitura" que conquistou, por exemplo, para a sua obra.

terça-feira, 20 de outubro de 2009

A infância de Dave Eggers


“Maurice and Spike and I talked a lot about how we were all like Max (...). I was completely hard to control as a kid. There’s nothing that Max does in my book which I wouldn’t do worse. I still find that all the boys I know that age are the same: they like to smash things, play with swords and guns. Regular boys’ stuff. But throughout the process of writing the screenplay and the book there were people in the movie studio who were expressing shock about what Max would do or say. Because it isn’t depicted any more."

“There is a whitewashed, idealised version of childhood that is popular in movies. It has the kids sitting neatly in their chairs, talking in some adult, sarcastic, overly sophisticated but polite way — a concoction that bears no resemblance to an actual kid.”

Dave Eggers, co-argumentista do filme O Sítio das Coisas Selvagens de Spike Jonze, em entrevista ao Times

Programa extensão doclisboa 2009 em Leiria


Está definido o programa da extensão doclisboa 2009 a realizar em Leiria entre os dias 26 e 28 de Outubro; a sessão de abertura será com um filme do leiriense Pedro Neves: Os Esquecidos (integrado na Competição Nacional), dia 26, às 21h 30, no Teatro José Lúcio da Silva (e com a presença do realizador para debate). Na segunda sessão teremos um filme sobre o desporto-rei: Futebol de Causas de Ricardo Antunes Martins (integrado na secção Footdoc), dia 27, às 21h 30, no mesmo espaço. Para dia 28, pelas 18h 30, no Teatro Miguel Franco, fica reservada uma sessão destinada a filmes premiados.

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Epidemia de Lars von Trier


Talvez mais do que perturbador, o filme que teremos oportunidade de ver hoje no Pequeno Auditório do CCC das Caldas da Rainha, em mais um episódio do ciclo Perturbador! pelas 21h 30, Epidemia é um filme de uma estranheza reveladora que a cada momento e a cada cena que passa insiste em testar os limites da compreensão humana perante a natureza daquele tipo de fenómenos inquietantes e incompreensíveis (senão mesmo sobrenaturais) que teimam fugir ao controlo das suas personagens, mas ao mesmo tempo parecem depender delas.

Foi o segundo filme de Lars von Trier e o segundo filme da sua Trilogia da Europa (antes houve O Elemento do Crime, depois haveria Europa), obras que transformavam o continente europeu num território de tragédia e decadência, espaço de trevas e obscuridade (entre a Idade Média e o pós-apocalíptico que como sabemos são universos que se tocam muito bem), um mundo entre o fim e o princípio de qualquer outra coisa e que aqui também sentimos (não só pela fotografia a preto e branco granulosa, antes sobretudo pelo reino de sombras em que a história parece sempre querer entrar) actuar de forma profunda (mais até do que nos restantes capítulos da trilogia).

Mas Epidemia é ainda um filme sobre a arte de fazer cinema, sobre como escrever um guião cinematográfico e daí partir para a sua concretização num processo de permanente procura e descoberta criativa, onde as trevas e o desconhecido parecem naturalmente ter uma palavra importante a dizer. É por isso que Lars von Trier e o argumentista Niels Vorsel são os seus intérpretes principais, já que é neles (e com eles) que se inscreve o exercício de desconstrução cinematográfica a que assistimos (poderíamos dizer que é ainda um bom filme para alunos de cinema, quase como uma espécie de lição de anatomia).

O instante, aliás, que melhor resume toda a essência de Epidemia está na cena da pasta de dentes, quando Trier e Vorsel, movidos pela curiosidade (uma curiosidade que está sempre presente e é ao mesmo tempo o motor do desejo de fazer cinema que marca estas duas personagens) procedem a uma forma de autópsia sobre o quotidiano objecto apenas para tentarem perceber como este funciona - esta cena tem várias réplicas durante toda a história, na nossa opinião, como na cena real de autópsia a um cadáver morto pelo cancro ou na derradeira sequência de hipnotismo -, gesto que é, no fundo, comum ao próprio gesto de "realizar" este filme; um filme onde tudo está à vista, ossos, pele e vísceras, nas mãos de um cineasta clínico (e cínico) que poderia ser qualquer criança a abrir o corpo de uma boneca só por brincadeira.

domingo, 18 de outubro de 2009

O caso Polanski


Não sei quem é culpado no chamado caso Polanski e até admito que possa não haver culpados nesta história com mais de 30 anos - e cujos contornos nunca conheceremos na sua autêntica dimensão pois só dirão realmente respeito aos dois que nele se viram envolvidos. Também não estou aqui para fazer qualquer tipo de juízo moral (Deus me livre, fujo disso como o diabo da cruz) nem para aditar à controvérsia fácil qualquer forma de julgamento público (outra coisa feia de se fazer quando não se tem um conhecimento concreto dos factos que ocorreram e muito cómoda para quem a pratica sentadinho nas esplanadas de café). Os conceitos de moral e culpa, como sabemos, oscilam muito de um lado e do outro do Atlântico (céus, até do lado de cá e de lá da rua a coisa muda, quanto mais), razão só por si suficiente para me abster de definir em favor de outros tão complexas fronteiras, e que mesmo hoje continuam a não satisfazer inúmeras consciências.

Agora sei que há vítimas, tal como sei que há meninas de 13 anos que são mais do que "meninas de 13 anos" (sempre as houve e sempre as haverá) e "realizadores" que nunca deixaram de beneficiar do facto de serem realizadores para atingirem propósitos diferentes à mera realização de um filme (ou a uma sessão de fotografias como foi o caso). Contudo, e segundo podemos ver no documentário Roman Polanski: Procurado e Desejado de Marina Zenovich, o caso Polanski depressa se esqueceu das suas "vítimas" - essencialmente esqueceu-se sequer de perceber quem era a "vítima" ou até se ela existiria - para se tornar no objecto de uma outra perversão: a voragem dos media à roda de um caso, e sobretudo de uma figura pública, cuja vida e percurso consistia igualmente um "filme" pontuado pela tragédia e pelo êxito - é preciso não esquecer que Polanski, além de ter sobrevivido ao Holocausto e à perseguição nazi que vitimou a sua mãe, viu ainda a mulher e actriz Sharon Tate brutalmente chacinada pelos elementos do grupo satânico comandado por Charles Manson, já depois de ter conquistado Hollywood e tornar-se um realizador consagrado.

Talvez por isso, consiga compreender que um homem que sobreviveu a Hitler e a Manson tenha pressentido que o palco em que o seu julgamento se tinha tornado não era mais do que uma nova forma de "execução" que muitas vezes, e hoje talvez mais do que nunca, insiste em romper com o sentido de uma genuína justiça (como nos linchamentos do Velho Oeste, diríamos). Repito; não sei se Polanski é culpado, e muito menos estou aqui na tentativa de inocentá-lo, mas sei como os carrascos são muito rápidos e agéis a aparecer nos momentos em que a oportunidade convida: e isso assusta-me mais do que qualquer pormenor sórdido na vida do cineasta polaco. Polanski, melhor do que ninguém, teria o faro para os detectar.

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Acto radical ou gesto corajoso?


Como é sabido o doclisboa cortou este ano a sua ligação à RTP2 por considerar que o canal público não tem apoiado e divulgado suficientemente o documentário nacional e internacional. Um acto radical para muitos, um gesto corajoso para outros, a verdade é que pôs muita gente a discutir aquilo que por vezes não se discute: até que ponto o documentário como género e o documentário nacional como expressão cultural e social portuguesa têm sido tratados no nosso país? Sérgio Tréfaut, director do festival que colocou o cinema documental num plano que talvez nunca como agora havia antes conhecido, e Pedro Borges, director da distribuidora e produtora Midas Filmes (e um dos catálogos que mais tem feito por incluir o documentário no mercado nacional) esgrimem argumentos num artigo do Público contra Jorge Wemans, director da RTP2, que diz não compreender as razões que levaram ao divórcio entre o festival e o canal do Estado.

É um facto que a RTP nunca fez o suficiente para divulgar e promover o documentário português e o género numa grelha de programação onde os poucos exemplos se perdem na espuma de horários tardios e inconsequentes. Por outro lado, também é legítimo perguntar até que ponto este tipo de antagonismos produz resultados num panorama já de si pobre e pouco fértil para a divulgação do documentário nacional, dos seus autores e temas? Disto temos a certeza: a televisão (e essencialmente a televisão pública) como meio fundamental e propício ao desenvolvimento do documentário, mas também como um dos seus campos principais de expressão, tem vivido alheia ao crescimento e à dinâmica actual da nossa produção documental.

Não deixa realmente de ser uma injustiça observar como grande parte do país não conhece provavelmente aquele que é um dos seus géneros cinematográficos mais ricos e estimulantes do momento, capaz de reflectir as verdadeiras questões nacionais (e nesse aspecto parece-nos óbvio: a RTP continua demasiado politizada e não deveria responder directamente, como acontece, perante o poder governamental) e rico na formação de novos valores e nomes no panorama do cinema nacional. Para quem não tem oportunidade de viajar até Lisboa e viver aquilo que o doclisboa representa e concretiza neste domínio, o comportamento da RTP2 é naturalmente reprovável. O que prova mais uma vez que o canal público não cumpre aquilo para que foi criado: descentralizar a visão do documentário português e promover um olhar verdadeiramente equitativo dos nossos acontecimentos culturais (e não estamos só a falar do doclisboa, estamos a falar do documentarismo como uma forma de consciência e intervenção social).

(na imagem uma foto do filme Os Esquecidos, filme do leiriense Pedro Neves, presente na Competição Nacional)

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Cartaz de Anti-Cristo


Gostamos deste tipo de cartazes; capazes de evocarem a tradição mais clássica da ilustração literária e ao mesmo tempo eficazes na sua capacidade de combinar design e inovação, unindo o clássico e o moderno, o presente e o passado. Na nossa modesta opinião, é o que achamos que acontece com este belíssimo cartaz para o filme-choque de Lars von Trier: Anti-Cristo, que deve estar daí a nada a estrear entre nós. E se não é crível que este seja o exemplar a chegar às ruas e às revistas quando a estreia ocorrer, já ficamos contentes por termo-lo descoberto, por simplesmente existir.

The Squid and the Whale


E perguntam vocês: o que tem o post abaixo a ver com cinema? Bom, para além da óbvia influência (Wes)Andersoniana expressa no clip, João Bonifácio também explica isso da seguinte maneira:

"Há que tomar em atenção que o nome da banda é inspirado no filme de Noah Baumbach, The Squid and the Whale. A graça do nome está num pormenor: The Squid and the Whale era a história da disrupção de um casal, e o seu efeito nos dois filhos. Ora, o filme era autobiográfico, embora Baumbach tenha tomado certas liberdades, em particular com a personagem do irmão. A graça disto é que, se pensarmos na forma com Dylan e os Smiths construíram o seu universo, vemos que há uma tensão entre extrema reserva e extrema exposição, entre criar uma personagem protectora que no fundo conta factos reais - é isso que o nome Noah and the Whale representa: a tensão entre o criador e a obra."

E pronto, está explicado, até porque não gostamos de misturar alhos com bogalhos.

Desde que nascemos até que morremos



"Isto vem na melhor poesia: desde que nascemos até que morremos é sempre a levar porrada. Larkin dizia: 'They fuck you up/ your mum and dad'. Podia esperar-se que depois do simpático começo que os nossos pais nos proporcionam, transmitindo maus genes, preconceitos e neuroses, tudo melhorasse. Não melhora. Porque depois vêm as mulheres (ou os homens, para quem gosta). E o que a mamã não conseguiu arruinar, há sempre uma mulher que o consegue de vez: é ela que "fuck you up" de vez. A biologia, a teoria dos jogos e a Bíblia explicam isto: em sociedade e em relações individuais funcionamos maioritariamente em regime "tit for tat". Isto é: tu fazes-me o bem, logo eu faço-te o bem a ti. O sistema que, em comunidades alargadas, é tão complexo que permite alguma estabilidade, tem a desvantagem de nas relações individuais transformar-se em "olho por olho dente por dente": quanto mais parecer que eu te faço o bem mais te posso cobrar; por mais que eu te diga que vou dar-te o correspondente bem já estou de olho ali no Zezinho ou na Zezinha. E assim o mundo dedica desde o seu início mais páginas à guerra dos sexos que às dos Homens.

O pequeno sistema de contribuições atrás mencionado é de simples descrição mas lenta aprendizagem. Enquanto são novos, os humanos esforçam-se por perceber o que correu mal na sua relação amorosa, culpam-se, imaginam vinganças, pensam que a vida acabou, tornam-se submissos, desorientam-se, copulam em demasia, perdem o gosto à cópula, etc. Uma vertente psicologista diz que o pior que lhes pode acontecer é não serem capazes de raciocinar sobre o assunto. A ser assim, das duas uma: ou ficam com o cérebro torcido ou (hipótese nossa) é bom que saibam escrever, pintar ou tocar um instrumento."

João Bonifácio em Sinfonia do Caos Amoroso (crítica ao disco The First Days of Spring dos Noah and the Whale no suplemento Ípsilon do jornal Público de 9 de Outubro de 2009)

doclisboa 2009



Começa hoje o maior acontecimento no campo do documentário em Portugal: a sétima edição do doclisboa volta a trazer aquilo que me melhor se faz no cinema documental por esse país e mundo fora. Uma edição que, tal como o Jorge Mourinha sublinha (e bem) hoje no Público vem para contar histórias, para nos falar de experiências e pessoas de uma forma eventualmente mais directa e clara em relação a outros anos. Talvez o filme que faça a abertura oficial do festival confirme exactamente isso: La Forteresse (The Fortress) do hispano-suiço Fernand Melgar é uma obra que entra num mundo normalmente vedado (mas isso, lá está, é a grande virtude do documentário) - um centro de acolhimento de requerentes para asilo político na Suiça (país onde se aplica a mais restritiva lei de asilo da Europa) - e nos mostra um microcosmos invulgar de pessoas marcadas pela exclusão e pelas suas diversas proveniências culturais, cuja esperança de uma vida melhor contrasta com um sistema diário e burocrático de pura classificação humana. Entre hoje e o próximo dia 25 de Outubro, este é apenas um dos muitos exemplos de alguns dos melhores documentários que irão passar pelas salas da Culturgest, Cinema São Jorge e Londres: num total de cerca de 200 filmes que a *aurora também terá o prazer de trazer até Leiria (26 a 28 de Outubro) e Alcobaça (20 a 23 de Novembro) num futuro bem próximo.

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Brincadeiras Perigosas no CCC das Caldas da Rainha (e não, não estamos a falar da Cristina Areia)



Não falta muito e é já daqui pouco: Brincadeiras Perigosas, a obra-choque que colocou definitivamente o nome do cineasta Michael Haneke no panteão dos grandes realizadores europeus contemporâneos, entra em cena no mesmo local onde a Cristina Areia andou a mostrar as maminhas para a Playboy, e claro, estamos a falar do Pequeno Auditório do Centro Cultural e Congressos das Caldas da Rainha, que recebe assim mais um episódio do ciclo de cinema Perturbador!, pelas 21h 30. Esta obra, curiosamente, conheceu dez anos depois um remake destinado a explorar o mercado norte-americano (e se a versão que nós vamos ver é na verdade a original, isso também demonstra bem o carácter actual que manteve), assinada pelo próprio Haneke e que replicava fielmente os mesmos planos e sequências do primeiro, apesar do elenco ser composto por actores americanos (entre eles Naomi Watts, Tim Roth ou Michael Pitt).

Mas neste caso o que nos interessa é o filme original: é esse o filme que vamos ter oportunidade de ver porque é esse o filme que o remake, embora todo o rigor e desempenho dos seus actores (apesar de tudo, Haneke é também um director de "actores", um homem capaz de tirar deles mesmo aquilo que eles não têm para dar), não conseguiu superar (até porque estar em 1997 não é o mesmo que estar em 2007). Um filme que explora a violência na sua dimensão mais amoral e niilista, como vertigem e como abismo, mas igualmente como a face de um mal profundo nesta nossa sociedade de contornos mediáticos e consumistas. Como se o que víssemos (a violência física e psicológica) fosse tão real por ao mesmo tempo ser tão prova da encenação em que vivemos. Para estômagos fortes, muito fortes, mas ainda assim imperdível.

sábado, 10 de outubro de 2009

2001: Odisseia no Espaço


Rever 2001: Odisseia no Espaço nunca é apenas uma revisão, é acima de tudo uma revelação, permanente e renovadora. E sim, há sempre novos pormenores: um gesto que nunca víramos anteriormente, uma cena que não havíamos apanhado (total ou em parte, literal ou metafórica), uma peça que encaixa na outra; essencialmente peças que encaixam umas nas outras e que à primeira vez, por desatenção, por incúria nossa, por um adormecimento da alma ou mera preguiça mental, não havíamos sido capazes de dispôr na sua lógica natural. Mas a obra-prima de Stanley Kubrick é um filme onde há muitas peças (imensas) e onde o puzzle acaba por constituir persistentemente uma coisa diversa daquela que víramos antes - o que faz de cada olhar nosso sobre aquelas imagens um processo inaudito de descoberta, uma viagem de estimulante transformação, uma experiência visual e mística, vá lá, para utilizarmos as frases mais recorrentes e comuns que normalmente lhe estão associadas.

Eu continuo a perceber que não percebo nada daquilo (apesar de ter a minha teoria: este é um filme sobre Deus e a sua relação com o Homem, mas também um filme sobre o lugar que esse Deus ocupa na nossa vida e existência e que é esse lugar que dá origem aos lugares para onde caminhamos como espécie em permanente evolução, mas isto é um pensamento - ou um julgamento - que tal como a sua linha de raciocínio se perde numa verdadeira espiral de sugestões, crenças e visões, e corre mesmo o risco de ser vítima da pressa dos seus entusiasmos). Ou ainda: que o menos importante ali é tentar perceber seja o que for, mas procurar sentir aquilo que se sugere, aquilo para o qual possa mesmo não existir uma definição verbal; o intangível, o não-dito, o não-visualizável. E sei que é um filme onde o cinema e a vida, a fé e o poder das imagens, a existência e o tempo, se confundem como em mais nenhum outro. E sublinho: em mais nenhum outro filme da História do Cinema. Quando o vejo, julgo que é isso que procuro: sentir-me fora do tempo, da existência, do corpo desta vida e da vida deste corpo, fora de tudo e de nada para assim estar mais dentro do mistério que somos.

Julgo que um velho amigo cinéfilo meu tem aquela que é até à data a melhor descrição que se pode ter deste filme: "vi, não percebi nada e gostei tanto". Estou com ele.

Patti Smith em Rio Maior



Termina hoje, pelas 21h 30 (estão naturalmente convidados a aparecer) o ciclo Músicos & Musicais no Cine-Teatro de Rio Maior com a projecção do filme de Steven Sebring sobre a madrinha do punk: Patti Smith - Dream of Life, um documentário que aborda as várias facetas da rocker, cantora, artista e poeta do mundo (esperamos não estar a ser demasiado solenes, mas a lista e o tom das definições parecem-nos muito justas). Ou talvez: Patti Smith como nunca a tínhamos visto (e sentido) como até aqui - filmado durante 11 anos, esta obra de Sebring é sobretudo uma incursão no mundo íntimo e privado da música norte-americana, tanto no plano público como no plano mais doméstico. Um filme onde a autora do seminal Horses (1975) faz da vida também um espaço de sonho (daí o título que é ainda o nome de um disco de Patti Smith editado nos finais da década de 1980) ou um espaço de recordação e evocação de épocas e pessoas que a marcaram de forma mais profunda e próxima. Mas o melhor talvez seja ainda ler o Luís Miguel Oliveira que, como sempre, explica melhor os filmes do que nós (ou os explica de uma maneira que só ele sabe explicar).

Notas sobre a cultura por Rui Vieira Nery


"Gastou-se muito dinheiro na construção de salas de espectáculos e auditórios em Portugal - e ainda bem - mas continua a não haver noção de que uma sala de espectáculos não serve para estar fechada. Só faz sentido se tiver actividade. Portanto, o passo a seguir seria ter programadores permanentes. É evidente que isto não dá votos. Mas há bons exemplos de salas que conseguiram criar dinâmicas de programação. Só que isso é um processo lento e exige alguma mudança de mentalidades, exige alguma noção da prioridade e investimento cultural como factor de desenvolvimento económico."

"Acho que (a actual política do Teatro Nacional de São Carlos) está numa enorme crise. É como ter um Rolls-Royce e depois não querer gastar dinheiro na gasolina."

"O principal problema da política cultural do Estado dos últimos 20 anos é que não há vontade política de a assumir como prioridade. Uma coisa que está clara em toda a Europa é que não há desenvolvimento económico e social sustentável sem uma componente cultural decisiva. Já não estamos a falar dos méritos espirituais das artes, mas de um sector que cria emprego, que gere mais-valias. É necessário dar ao Ministério da Cultura meios orçamentais adequados. O Estado não consegue fazer nem deixar fazer. Sou da geração do Tintim e costumo dizer que, nesta fase, tanto faz estar lá o general Tapioca como o general Alcazar porque a situação é a mesma. Penso que o engenheiro Sócrates, neste último ano, já por várias vezes reconheceu esta necessidade e deu a entender que haveria um investimento reforçado na próxima legislatura. Acabou por não haver uma quantificação no programa do PS."

Rui Vieira Nery em entrevista ao jornal Público de hoje

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Cultura: Negócio da China


Cultura: Negócio da China

Não é novidade para ninguém falar-se em Alcobaça como uma cidade de cultura (e muito menos para os habitantes locais). Mais do que o turismo, mais do que o artesanato, mais do que a agricultura, mais do que a cristalaria, mais do que a cerâmica ou qualquer outro tipo de indústria local, a grande vocação da cidade sempre se prendeu com a cultura. E dizemos isto porque sabemos bem no nosso íntimo que todas estas actividades, fundamentais para a economia local, para a sua afirmação na região, marcas de prestígio ao nível nacional e internacional, indutoras de emprego e dinamismo económico, foram naturalmente uma consequência directa dessa lei básica: a tradição cultural.

Mas como?, perguntarão os mais incrédulos. Porque os produtos ou serviços sempre nasceram das ideias. E as ideias que nascem da criatividade foram sempre buscar a sua capacidade de fantasiar ao conhecimento, à memória, a tudo o que se leu ou ouviu, ao passado (um passado que no caso de Alcobaça recua à própria fundação do país), a essa soma de elementos que, hélas, origina a cultura (não é a cultura aquilo que se faz com o a memória e o conhecimento?). Claro que há aspectos que remontam à própria génese histórica de Alcobaça, nomeadamente através da fundação do Mosteiro de Santa Maria há mais de 8 séculos (e isto quer queiramos quer não, tem peso, mesmo para o alcobacense que nunca tenha posto um pé lá dentro), talvez a primeira grande sede de conhecimento e cultura no pais: uma espécie de choque tecnológico" da época e que muitos (garantimos que esta teoria não só não é nossa tal como não é original) admitem ter levado o país à glória dos Descobrimentos.

Mas se Alcobaça tem artistas, criativos, iniciativas ou instituições como poucos concelhos da sua dimensão (ou maiores até), por outro lado continua a existir nela ainda pouca consciência do valor dessa tradição (um problema que não é só local, mas nacional, diríamos) e da potencialidade económica e financeira que pode gerar. O cliché vetusto que diz que a cultura apenas representa custos e prejuízos é uma das maiores falácias dos dias de hoje (além de um sinal de demência, arriscamos) e bastaria mencionar a ascensão e os estudos sobre as indústrias criativas e as cidades culturais para provar que a cultura pode ser, e em muitos países da Europa já o é, uma solução para a crise e para desenvolvimento (logo para o desemprego, logo para a depressão económica).

Uma solução que sobretudo tem a vantagem de coadunar-se com as mais diversas áreas e actividades (já o dissemos: uma boa ideia é uma boa ideia, seja aqui ou na Conchichina), através de vertentes tão flexíveis como o marketing, o design, a tecnologia ou o puro entretenimento. Agora, não vamos dizer que não nos assusta vivermos num concelho onde o poder local (apesar de grandes apostas e uma notória evolução) não ter sido ainda capaz de o afirmar como uma prioridade clara aos seus desígnios políticos - de o "institucionalizar", verdade seja dita.

E contudo, é a cultura a única que consegue encher a grande praça do Rossio (30 mil pessoas: aconteceu com Amália Hoje, projecto que inclui dois artistas locais, vai voltar a acontecer com a mostra Rabiscuits que povoa o mesmo espaço de obras de arte experimental, acontece todos os anos com Festival Cistermúsica, sem esquecer a contribuição de todos os outros: músicos, escultores, fotógrafos, bailarinos, escritores, historiadores, designers, etc., ao longo do ano). Não estamos a inventar a pólvora, mas este - a "cultura" - pode ser o negócio da China de que todos andam insistentemente à procura fora das fronteiras do concelho: e que afinal está mesmo ali ao virar da esquina, em qualquer um dos artistas e criativos que circulam por Alcobaça - e asseguramos: a quem não faltam ideias para virar o mundo do avesso (coisa que como todos nós bem sabemos o mundo anda precisado como de pão para a boca).

No ponto

A mostra de arte experimental Rabiscuits que durante o próximo fim-de-semana vai tirar Alcobaça do tédio e da obscuridade em que muitas vezes se compraz começou de mansinho e timidamente há 4 anos: hoje é uma amostra viva e clara do que os artistas são capazes de fazer e de como a união das suas expressões e criações podem elevar a moral de uma cidade. E ainda de como cada um de nós pode ser um artista (coisa que não deixa de ter o seu valor terapêutico).

Em banho maria

Tem-se discutido muito sobre o destino dos espaços devolutos do Mosteiro de Alcobaça e qual a melhor solução para restaurar e preservar tão “digno” património. Hotel de charme, Pólo Universitário, Centro de Congressos, Museu, Fundação, tudo muito bem. Já a transferência dos Serviços da Câmara, parece-nos abusivo. Ora, se temos a boa experiência que resultou da CeDeCe, porque não pensar o monumento também como um espaço para residências artísticas? Mais do que dignidade, o Mosteiro precisa de gente viva e irrequieta.

Requentado

A relação dos políticos com a cultura é um pouco como a do “emplastro do FCP” com a televisão. Quando as objectivas estão lá, fazem tudo para entrar no plano, quando não estão, nunca se sabe muito bem onde é que param. Não basta uma frase ou duas nos programas de campanha a enaltecer a importância da cultura e dos artistas. Diga-se o que quer, para onde se quer ir e o que pretendem fazer por isso.

David Mariano (publicado no Jornal de Leiria no passado dia 17 de Setembro na rubrica Advogado do Diabo)

sábado, 26 de setembro de 2009

Pequenos ecos da imprensa local


Depois do artigo publicado a semana passada na rubrica Advogado do Diabo (que todas as edições entrega aquele espaço de opinião a um convidado), esta semana a edição do Jornal de Leiria volta a referir, de forma discreta, é certo, o trabalho da *aurora num pequeno artigo sobre a dinâmica dos agentes culturais na região, e cujo título vale pela evidência: Cultura já não espera pelo Estado.

Num caso e noutro (o autor da peça apelida-nos de movimento, já o músico Nuno Gonçalves fala em associação), as denominações não correspondem bem à realidade, embora não sejam desprovidas de algum sentido e pertinência. Em termos correctos, a verdade é que somos uma "rede de programação e exibição de cinema" (talvez o título seja um pouco longo, mas é isso, no fundo, que melhor nos define); e ainda que o nosso trabalho possa igualmente ser entendido como um "movimento" (tendo como alvo a cinefilia e uma maior promoção da relação do cinema com os espectadores) e como uma "associação" (com os vários espaços culturais e salas de cinema, além de outras instituições e entidades culturais), não deixa de ser interessante que a *aurora começa ao fim de poucos meses a entrar no léxico das dinâmicas culturais da região.

(clicar na imagem para ler o artigo na íntegra)

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Pedro Costa: o Samuel Beckett do cinema?


Hoje é um dia feliz para o cinema português: O Sangue de Pedro Costa tem cópia nova e está desde hoje em reposição nos cinemas UCI El Corte Inglés. Fulgurante obra de estreia do cineasta (e um dos mais invulgares autores contemporâneos do nosso país), este acontecimento serve um pouco de aperitivo para aquela que será a apresentação da última obra do realizador em Novembro: Ne Change Rien, apresentado na Quinzena dos Realizadores em Cannes, e que contará na estreia por cá com a presença da actriz Jeanne Balibar.

Também ontem, a acompanhar esta reposição, foi apresentada na Cinemateca Portuguesa a monografia cem mil cigarros – Os Filmes de Pedro Costa, uma edição de mais de 300 páginas com textos de 28 críticos, ensaístas, realizadores e artistas de todo o mundo, coordenada por Ricardo Matos Cabo e publicada pelas edições Orfeu Negro.

Mais: o realizador português vai ter uma retrospectiva integral na Tate Modern, em Londres a partir do dia de amanhã, 25 de Setembro, e até 4 de Outubro. Na imprensa, por lá, clamor também não lhe falta: a revista Sight & Sound dedica-lhe um longo dossier de 6 páginas, isto a par do diário The Guardian, um dos mais prestigiados jornais britânicos, que vai anunciando no título do artigo que dedica a Pedro Costa que este é o Samuel Beckett do cinema. Ainda amanhã, e conforme já deu para dar uma olhadela, o Ípsilon, suplemento do Público, dedica-lhe a sua capa (o que significa que lhe dedicará muitas páginas no seu interior).

Maria do Mar em Leiria


Vamos estar lá: Maria do Mar, clássico intransponível do cinema mudo português, é projectado amanhã, pelas 21h 30, no Teatro José Lúcio da Silva em Leiria. Um acontecimento raro, alertamos, porque esta obra-prima de Leitão de Barros será musicada ao vivo por Bernardo Sassetti, que é não só um dos nossos maiores pianistas vivos, mas ainda um dos mais criativos autores de bandas sonoras do cinema nacional, aqui acompanhado pela Orquestra Filarmonia das Beiras, dirigida pelo maestro Vasco Pearce Azevedo, e pela voz de Filipa Pais.

Vários factos tornam este espectáculo num evento único e privilegiado: primeiro, a possibilidade de observar em cópia restaurada pela Cinemateca Portuguesa um dos filmes mais incontornáveis da História do Cinema Português, segundo, combinar esse olhar com a particularidade feliz deste filme ter sido rodado na Nazaré numa época remota que regista as características daquela comunidade piscatória (e que tão bem conhecemos pela proximidade que dela temos). E depois, porque Maria do Mar cruza elementos de verdadeiro modernismo através da aliança entre o documentário e a ficção que a tornaram num fragmento da realidade humana daquele lugar e daquele tempo. Coisas que nunca passam de moda.

Bergman a quem oferecer o valor mais alto


São 339 objectos segundo o Público: Ingmar Bergman vai a leilão, tal como era o seu desejo (ao que consta expresso no seu testamento), para evitar que a família se zangue no capitulo das partilhas. Já se sabe:o dinheiro é mais cómodo e divide-se melhor que qualquer objecto deixado em herança - é uma questão de pura matemática. E por uma questão de matemática financeira, portanto, será possível então adquirir no no próximo dia 28 de Setembro em Estocolmo, na Suécia, através da Bukowski; móveis (caso da escrivaninha onde escreveu os seus argumentos), quadros, prémios de cinema e de teatro (um globo de ouro), bibelots ou até as célebres peças de xadrez usadas no filme O Sétimo Selo. Bergman, com certeza, deve estar lá em cima a achar muita piada a tudo isto.

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

A isto ele chama realismo


"A vida é muito dura, muito agreste, brutal, curta de mais, feia e má, e, no fim, não há esperança que nos salve. A isto eu chamo realismo."

Woody Allen em entrevista ao semanário Expresso